Domingo, Julho 27, 2008

Sesta dos Compadres


Está modorra e, a gente espera deitados pelo amarelar das searas.
Há hábitos que nunca se perdem.
Divirtam-se enquanto puderem.

Sábado, Julho 05, 2008

Mural quase perfeito


Há um ditado qualquer que cita algo do tipo, quem não tem que fazer, faz colheres!
Ora eu, depois da limpeza da casa finda e da roupa de quatro semanas passada, e depois de andar dois dias a remoer no que me disseram após um ataque pessoal semi-histérico com murros e tudo na mesa ao qual virei costas, decidi embelezar a parede da retrete de serviço cá de casa pintando-lhe uma espécie de mural.

Já dizia o meu avo que o maior alivio era um gajo cagar atrás das canas...

Sábado, Junho 21, 2008

Os dias











A Açucena amarela teve gémeos.


A Alice está a adivinhar chuva.








A Passiflora pinnatistipula já tem cápsulas de segredos floridos.






E eu invento fins de semana grandes e silenciosos.

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Até ficava catita...

Art Museum
Museum by dumpr.net

Coisas por dizer


Quando nos damos a conhecer a alguém falamos de tudo e mais uns tostões , noventa por cento do tempo de emoções. Somos feitos de sentires que ninguém negue e é através da verbalização e do movimento corporal que nos despimos aos poucos, complicando ou descomplicando sinais que o outro atento tenta descodificar. Entramos na fase, a novidade.

Depois, achamos de repente porque sim que adivinhamos tudo, que o outro já viu tudo, começando a coisa a baralhar-se a um ritmo frenético. Naquele dia não nos demos ao trabalho de explicar que os sinais da bandeira mudaram de cor. Sem bóia e o mar bravo acenamos ou afundamos, normalmente num mutismo que brama mais alto que palavras gritadas.

Começamos por nos justificar, lá para o fim encolhemos os ombros selando a concha arrastando devagar o tapete cheio de partículas perdidas em letras sem rumo que não se encontram no labirinto das paredes erguidas dia após dia. Entra agora a segunda etapa, o poistábem.

Deixaremos então recados colados e setas nas veredas ao fim da tarde, mas a noite sobressalta-nos e o foco ficou no bolso da gabardina que está ao cimo das escadas pendurada atrás da porta. É o inicio da terceira fase ou, da cegueira ao entardecer...



A foto é de Bobo Olsson


Quinta-feira, Maio 29, 2008

O alemão e eu

Acabo de ver um pirilampo a pirilampar no jardim!
Na ânsia de o ver mais de perto tropecei nos pés e perdi-o de vista.

Terça-feira, Maio 20, 2008

Chefes burriés

Eu gosto do que faço. É um facto, ou não andava vinte e um ano a aturar palhaçadas burocráticas que me bulem com os nervos quase diariamente. – Eh pá também não ganhavas… – Erro! Ganhava provavelmente mais e aumentava anos de vida, outro facto indiscutível. Há quem garanta que sofro de certezinha de uma pontinha de masoquismo – antes disso que diabetes – e noutra encarnação fiz mal a muita gente, ou não me tinham enviado uma anã déspota com menos anos de curso e mais nova chefiar o serviço. E nem sequer é dor de corno, que até já chefiei serviços mais que uma vez e detesto francamente, mas a malta era insistente e um dia ao acaso ofereceram-me de bandeja uma porcaria de uma especialidade que recusei à partida que para maluca já tenho a minha dose diária, tás a ver depois daí é directo e vais chefiar um serviço…

-Fodasse pá! eu não quero chefiar porra de serviço nenhum, é assim tão difícil de perceber?!

A coisa é muito mais simples. Mandando sou uma filha da puta perfeccionista mas, também não nasci para ser mandada. Coordenada ainda papo, mas mal mandada a coisa cheira-me logo a fezes moles causando-me brotoeja e passo de bestial a besta num segundo quando a bota não bate com a perdigota, outra expressão muito famosa que nem sei bem de onde vem a coisa com a coisa mas que fica aqui mesmo a matar.

Vem tudo isto a propósito de uma discussão de merda que durou menos que três minutos, que eu já tinha jurado não dar abébias a anãs com TPM, mas a malta até anda uma semana a remoer enquanto tem palha, e a coisa falha e só tem a anã a cuspir-lhe para os pelos da narina e das duas quatro, ou lhe dás com o rabo ou fazes como quando tens burriés que te incomodam, não tens lenço vai já aqui na parede, ou tendes tempo até fazes uma bolinha menos pegajosa e atiras janela fora. Eu hoje não tinha tempo e esborrachei-lhe o burrié na lapela. Foi injusto que a gaja é pequenina e nem se conseguiu defender. Temos pena.

– Vou registar a ocorrência!

- Regista! E podes repetir três vezes a negrito com sublinhado e caneta fluorescente por cima! E debita-me a seguir a caixinha dos lenços.

(Pró caralho!...)

p.s.

alguém tem uma motoserra que me empreste?

Quinta-feira, Abril 17, 2008

A chamada

A noite correu-lhe mal. Deu voltas e mais voltas beliscões na almofada, suspirou, tornou a suspirar, a perna esticada a perna enrolada a perna com cãibra, a testa enrugada e mais uma punhada na almofada. Adormeceu por exaustão e acordou quatro horas depois ao som do telemóvel que frenético andava ás voltas sobre si ali ao lado.

-O pai morreu!

-Ah, qual pai?

- O nosso, pá! -E a voz entaramelada do choro.

-Quando?

-Hoje ás 9h, vou buscá-lo a Lisboa.

-Ah…está bem, quando chegares avisa. Queres que vá ter contigo?

- Não, eu aguento-me.

-Beijinho e vai com calma.

-Sim, vou.

No espelho à procura de uma emoção só vislumbrava remelas e a tez baça. Lavou os dentes ajeitou os cabelos e urinou. Cinco minutos mais tarde enquanto mexia o café e olhava lá para fora pensava que, há rios que quando secam é para sempre.

O luto já tinha mais de vinte anos e estava um dia lindo lá fora outra vez.

Sábado, Março 29, 2008

Perfil



O teu perfil revela-nos que és:

Tímido, competitivo, suave, humilde e solitário.

Por isso fazes um bom par com o génio Brynn.

Brynn para que saibam é um tigre do sexo masculino, porque os pares de humanos e génios normalmente são mistos, diz o link do Golden Compass, aquele filme que o meu eu criança devora sonhadoramente enquanto mantém as pernas cruzadas sobre a cadeira do cinema e, a seguir se esquece de desenrolar e faz sempre um bocado de figura estúpida quando quase cai ora para a peruca do gajo da frente, ora para a alcatifa pegajosa salpicada de pipocas no mal iluminado corredor central, e não me venham com a treta de que até já acenderam as luzes que eu sou um bocadinho astigmática e a água que tenho nos olhos e não me deixa ver bem é reflexo de ter estado aquele tempo todo sem pestanejar de boca aberta.

Tímida sou, vou comprar tabaco em situação de rasquinha na tasca da vila porque, o vicio é mãe de todas as grandezas e olho apenas muito fita pr’o senhor do lado de lá do balcão e tenho sempre que repetir duas vezes que é um Marlboro Ligths porque apanho sempre criaturas com os ouvidos cheios de cera que nunca me percebem à primeira embora há quem diga por pura maldade que eu falo para dentro. Calúnias!

Competitiva, tenho dias. Nem sempre me calha bem que me ultrapassem na fila do refeitório, mas estou-me bem nas tintas que haja quem trabalhe mais do que eu durante o turno que eu já levo muitos anos a virar frangos. Já não sou gaja de jogar em grupos, ou para grupos, porque perder nem a berlindes.

Lá suave sou, especialmente quando até já me saltou o tampo e entrei na fase do ai ele é isso? A palavra mais adequada é gentil, porque é uma cena de berço, do signo com que a alvorada me brindou ou da esmerada educação recebida, embore eu concorde que é fruto da vida que me foi limando as arestas até chegar ao ponto da minha filha me dizer que tenho a barriga macia.

Sou tão humilde que, nem quando as gajas do meu curso tinham melhor nota do que eu no trabalho de grupo, embora fosse eu a despachar aquela treta toda sentada na sanita da casa de banho das raparigas, eu refilava. Saia-me um esgar hora de desgosto ora de desprezo, não ouvia metade das aulas e passava o tempo dos intervalos sentada no chão no lado de trás do edifício a ver passar as formigas e a despachar cigarros. Ainda hoje passo por delinquente lá na escola, mas também não tinham nada de me proibir de calçar botas caneleiras, e na semana seguinte por mero acaso ter aparecido por lá com elas calçadas e cardadas.

Hoje, ainda acho que poderia fazer melhor, que há quem seja e faça, e que o egocentrismo é um animal muito feio que se aloja no umbigo em forma de cobra preta.

Solitária sou. Porque sim, porque me sinto bem no meio do nada a ver passar os navios, os percevejos e os pássaros. Porque gente a mais me descontrola, porque não lhe consigo dar a atenção que me merecem, porque gosto que me olhem directamente nos olhos, porque gosto de os observar dentro do espaço que ocupam, e porque o silencio é meu companheiro e conselheiro nas boas e nas más horas e por muito que esperneiem de indignação, continuo com a convicção estapafúrdia que há coisas que temos e devemos fazer a sós com o ego.

Quanto ao Brynn o animal tem um pelo riscado lindo, mas já fiz a minha aposta que haveremos de andar muitas vezes de costas voltadas a olhar para as respectivas unhas. Vou-lhe no entanto permitir uma oportunidade rara, que é a de me afagar o pelo, na certeza simbiótica e animalesca de que é um gesto desinteresseiro.

Segunda-feira, Março 24, 2008

Parabéns Hipatialudovina


Tem o cabelo cor do fogo que arde nas lareiras das casas do norte, e sai vestida com uma capa de lobo empertigando-se nos saltos.

Tem os olhos da cor das searas na Primavera, e torna-se branda quando o calor Mourisco a aquece.

E é pequena outra vez quando vermelha das papoilas onde se rebola se derrete melosa ao som das cigarras.

Parabéns HipatiaLudovina e que venham mais tantos again!

Sexta-feira, Março 21, 2008

Vens tarde Prima


Crepúsculo findo, brumas sonolentas sinuosas e já a rainha cega penteia longas e ralas tranças brancas, enquanto se embala imperceptivelmente ao som dos teares que queixosos lamuriam os restos frios da escuridão. As vozes roucas dos gansos estremunham as cotovias piscas de olhar orvalhado e, o cão cansado de pernoitar pelos arganazes procura o sol que tímido se espraia acariciando a calçada.

No som do eclodir das sementes deixo-me dormente ficar só mais um bocadinho sorrindo aprazivelmente ao choro fraco da Primavera.

Quinta-feira, Março 13, 2008

Maria-fia

Tábido terrestre, vicio culminado em loucura que se mete pela pele tamanco da existência na soberba de olhar aquém,

para lá,

de cá,

que isto é como quem diz vivaz planta flor de botão que se deu num dia que ainda não aconteceu,

além,

fixa agora o que se desvanece vão de água em vau quente,

paul da saudade que se omite na imaturidade do substrato que se desconhece puro.

Apenas e só faladura, petulância de vade-mécum.

E não havendo medo, não é coragem.

Quarta-feira, Março 12, 2008

Despassaramentos


Ao fim de cinco meses a morar-mos na casa nova, o meu filho mais velho cerca das 23,30h pergunta-me com ar alucinado:
- Mãe, onde é que se acende a luz de cima da sala?
(duh!...)

Quinta-feira, Março 06, 2008



Merdicacas

Alcova, onde o cheiro se aninha

Chilreio, que oiço lá fora e me atira contra as nuvens de algodão

Ciciado, o sopro quente das palavras que me gritas ao ouvido

Porra, o redondo da língua enervada

Sargaço, o limo que me arrepia e cheira a sal

Zibelina, porque me lembra Marta que me lembra farta, que silva ao ser dita e eu gosto

Neblina, e o que eu gosto de me perder nela

Pranto, alivia, desentope e faz dormir

Avesso, o que está escondido com o rabo de fora

Mentecapto, o gozo de o dizer e o outro não perceber

Patarata, um misto de pata e rata que caiu na ratoeira

Óbvio, porque sim

Pélvis, pelo ondular quente que me freme com os neurónios

Maciez, da carne, do veludo, do pelo do gato, da faia

Veneziana, porque os riscos sombreados que lança no chão de madeira me apaziguam, e azuis se faz favor.




E Hipatialudovina, se julgas que te refugias na alcova, depois de encerradas as venezianas a ouvir o ciciado chlirrear do loiro, enquanto a neblina se encosta nos sargaços e na maciez da tua pele zibelina, e os mentecaptos ficam por aqui a ver-te dar à pélvis só porque é obvio, desengana-te, porra!

Quando te apanhar meio patarata, vais ver como o pranto te alivia…

Plim!

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

quando finalmente me aperceber, vai-me parecer mal...

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

A carta

...já me deram muitas desculpas, estar sobre uma tempestade de neve é a primeira. Faz lembrar aqueles romances de pacotilha que eu lia quando era adolescente, ou na actualidade, os filmes americanos que neste caso assentam que nem uma luva.

O meu estilo, como lhe chamas, é negro. Um misto de rebelião com saudosismo barato, em que os heróis nunca deixam de ser heróis mesmo que o reumático já lhe encha os ossos inquietos.

E rapaz, serás sempre rapaz, embora tenhas menos cinco ou seis anos que eu, e sejas mestrado em sei lá o quê, pois usarás sempre óculos grossos a taparem-te as pestanas grossas e farfalhudas, e sentar-te-ei sempre no meu colo enquanto digo à tua irmã P. que és o meu namorado enquanto te encho a bochecha corada de beijos. Estás a topar a cena?

Skype só para a máquina, embora em momentos de euforia publicitária opte pelo Tide ou pelo Ariel e me arrependa logo a seguir e ande uma semana a repetir que não irei seguir conselhos marados de gajas domésticas e giras que até lavam roupa e tudo em casa.
Enfim…

Pensarás, a gaja está completamente xoné, está para aqui a debitar um discurso sem nexo, mas au contraire, estou tal como era há trinta anos atrás quando não me calava enquanto jogava ao Risco contigo, e tu perdias e ficavas completamente lixado e juravas nunca mais jogar comigo a coisa nenhuma, e eu desenhava-te mais um Cheguevara para colares na parede e continuávamos amigos como dantes. Lembraste? Ser amigo de uma adolescente era lixado.

Vais ver que não nos vais reconhecer, dizes tu, rapaz de certezas irrefutáveis, lógicas bizarras e teimosas.
A tua miúda não que só lhe vi um retrato em bebé. Tu, estás igualzinho filho, mais careca, com rugas que não te conheço, os mesmos olhos tristes por detrás das lentes de contacto, e uma barba por fazer que via diariamente na cara do teu pai. O cachecol ainda o enrolas como dantes. Via-te todos os dias Johnny, reconheço-te até no fim do mundo.

Toma beijos e aperta-me esse sobretudo que faz frio por aí.

Desta que te estima.

J.P.

Domingo, Janeiro 27, 2008


A vida também precisa que lhe escrevas, é a modos que egocêntrica em dias alternados, despe e veste a farpela domingueira como quem se mostra à gente na esquina, a usar farrapitos de conversas enquanto desconstrói corpos que se trocam pelo dia conforme lhe dá na veneta. É um virote, não se condói. Parece vento daquele que nos entra pelo cabelo.

É chata a vida.

Mas a porra da inveja da ventania. Magicamos por entre as gretas escaqueirando o verniz. Por onde te escapas quando fechamos as mãos? Por entre os dedos, então não sabes que a vida é polida por areias ancestrais? Podes é aproveitar na volta da esquina. Descontrai-te que ela agora não está a olhar. Vai lá calçar as pantufas devagarinho, escreve-lhe cartas de amor e ódio, como o senhor da pala de cabedal - ou mero pano de linho tingido – como cartas de alforria de alguidar. Tal qual a carne.

E a carne é fraca.

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

reencontros

Voltaram a perguntar-me porque me deixei lá ficar durante tanto tempo.

-Por inércia, por desleixo, por medos não interiorizados, por baixa auto-estima essencialmente.

-Tu!? Mas desde quando é que deixaste de ter auto-estima?!

- Quando deixei de me olhar ao espelho.

- Mas isso é uma parvoíce. Tem que haver outra razão. Tu és igual ao que sempre foste, pouco ou nada mudaste, ou melhor, até melhoraste. Por amor da Santa, isso é uma insensatez! O gajo era, e é, de certeza um animal, pátati, patátá…

Desliguei o sensor,e bloqueei os centros receptores. Restava-me olhá-la por detrás dos óculos escuros, enquanto lhe via brilhar a aliança.

Zurzir nos pobres homens analfabrutos a quem a mãe natureza não dotou de sensibilidade mediúnica para prever o nosso próximo desequilíbrio hormonal, é considerado o top das prioridades socialmente correctas. Nós nunca temos culpas. Eles acumulam todas as inépcias e handicapes mundiais.

Eu sei que faço parte dos gráficos.

Não gostei, e não gosto.

Mas não me senti especialmente humilhada. Ele era maior, com o dobro da superfície muscular e, com metade dos neurónios disfuncionais. Só conseguia sentir raiva por não lhe poder retribuir da mesma maneira violenta, embora mais tarde se tenha transformado de calmeirão em vítima, quando interpôs recurso no processo de acusação de violência e maus-tratos. Devia na primeira dose tê-lo denunciado. Este foi o meu primeiro erro, apenas e só. Permiti. Agora é chorar sobre o leite derramado.

Mas este género, nem sequer é o grau de pureza certa.

Pior é, quando a inteligência modificada faz uso de formas veladas e reboladas, de manipulações embrulhadas em lacinhos cor de mel, em que ás vezes é doce e noutras fel fenilanizado, capaz de nos fazer ingerir duas taças de seguida e nem perceber de onde nos vem tanta azia. Lambuzam-nos o ego carente, e instalam-se em jeito de parasita numa velosidade angulada.

E sorvem sempre.

-Estavas a dizer o quê mesmo?

Sábado, Janeiro 12, 2008

embalar o menino


A Maria pariu enquanto fumava um cigarro. A clínica privada assim o permite. Tem um dístico laranja na entrada onde se lê que ali é, permitido fumar. Ainda bem, andava por aí à nora sem saber onde encostar o maço e salvaguardar o olho, que andam muitos dedos apontados disfarçados de pides com roupagem nova.

A gente lá no serviço criou à socapa uma salinha de chuto. Resta-nos ir pedir subsidio pr'a gripe, pr’a escoliose, e pr’o aparelhinho da casa Sonotone . A Sibéria ao pé daquilo é quente, o pessoal mais alto ainda consegue encostar as mamas no parapeito e espetar o braço dormente de fora e, as máquinas do vapor guincham alucinadamente com decibéis proibitivos. Se não for desta que nos dão o subsidio de risco, não sei quando será.

Esta noite, até já sonhei que a Tabaqueira tinha enviado uma clapeleta de metal em forma de agradecimento ao que resta da minha família, por bónus de sobrevida comparativamente ao gajos subsidiados.

Tá quentinho na casa da Maria e tem cinzeiros. Ia-me perdendo na floresta antes de lá chegar, mas, ainda bem que o lobo mau tem um pacto de sangue comigo.


Terça-feira, Janeiro 01, 2008

2008

Sábado, Dezembro 22, 2007


Comei e bebei oh! criaturas bizarras, como se o mundo acabasse de manhã, e não vomiteis que a comida foi paga com o vosso cartão de crédito.

Abraçai-vos com o meio metro de distância recomendado, e respirai profundamente na janela da sacada depois.

Podeis derramar umas lágrimas comedidamente, e assoai-vos ruidosamente ao canto da cozinha.

Perdoai os outros pecadores como eles decerto vos perdoarão.

Guardai zelosamente os laços, fitinhas e restante papel de embrulho que os aniversários aproximam-se a passos largos .

O esgar em forma de sorriso, polvilhado de açúcar e canela será permitido e recomendado.

Alegrai-vos com a antecipação do Sangue derramado.

E de uma vez por todas tenham a coragem de dizer à vossa tia para enfiar as putas das peúgas na ampola rectal.

Que o Senhor vos acompanhe que eu não estou com disposição.

Ámen.

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Viver no campo


Já me tinha esquecido de como viver no campo é fixe. Se não ligarmos pevide ás moscas e ás aranhas que todas as tardes tecem carpideiras as teias nos cantos inacessíveis, e a uns gajos arruivados com cem patas e bigodes farfalhudos que gostam de escadas, a coisa é bucólica. O preço das portas mosquiteiras do AKI é que nem por isso. Os olhos arredondam-se de espanto enquanto se solta um palavrão primo da nova operadora de telemóveis, que a coisa é francesa daí ser cara, só tem essa explicação, que viver no champ é coisa vip. Vim eu das herdades agora armada aos cucos...Pois que venham as moscas, melgas e mosquitos, sai um Raid do armário, tu usa-me o mata-moscas pá, então tu não ouves os galos marados da vizinha que cantam ao desafio lá para as duas da manhã um mais esganiçado que o outro -a galinha Serafina de ouvidinhos sensíveis pica-lhe as hemorróidas, só pode- é do buraco, os bichos lá sabem que anda tudo virado do avesso. E os patos? Bem, essa freguesia já faz parte de um estado mais avançado de loucura só partys pela noite dentro e de manhã tornam-se mudos, o burro das gengivas furiosas só zurra pr'o cavalo, tu queres lá ver estes gajos a noite inteira num chinfrim, e agora querem é dormir, pois vai lá e diz que mandei eu.

Viver no campo é fixe! É, é...

Domingo, Dezembro 02, 2007

Chá noite tranquila


Absorta e sentada ás três pancadas sigo o sol que se põe cedo. Oh pá, que raio a invenção da menos hora, já não bastava o frio que se infiltra sorrateiro no colarinho, agora menos uma hora. Não é justo e ponto.

Mais uma sorvedela no capuccino.

Mais uma no cigarro.

Lá se foi por detrás da serra o sol a deixar rastos rosados compadecidos, estás a ver, quem é amigo, quem é?

Ora deixa cá ver se consigo instalar o kanguru (assobio) parece que sim.

- Olha, olha, os gajos do clã despediram-me! Gaiatos de merda antipáticos, já não se pode estar a morar no cu de Judas, sem acesso a netes, sem correios electrónicos, blogues, novidades no Ikea e tal, tenho os vampiros dormentes no cemitério e tudo, também cago bem no clã eu até nem papo grupos, olhe desculpe mas pode-me dar uma transversal e uma perpendicular da sua rua para podermos confirmar a morada?

- Quer um mapa do Google, ou prefere um desenho à mão?

- O serviço que requereu é uma mudança de morada, certo?

-Errado… anulei esse serviço há sete anos atrás. É para activar apenas o que já está montado no condomínio.

- Sô Dona Joana, deixe-me então confirmar o número do contrato. Pois Sô Dona Joana então é assim. Ajudava imenso saber o nome da rua perpendicular e/ou uma paralela da sua.

Suspiro…

- Não me acabou de confirmar que por um acaso feliz, confesso, até já foi activado o serviço de um vizinho da frente?

-É verdade Sô Dona Joana.

-Então qual é a dúvida?

-A paralela e a perpendicular ajudavam bastante.

- Foda-se, isto não me está a acontecer.

Piiii…piiii…piiii…

-Sim?

-Sô Dona Joana, a chamada deve ter caído.

- A chamada não caiu. Desliguei simplesmente. Lamento mas atingi o meu limite máximo de estupidez diária. Adeus.

Cai o Kanguru, de momento o seu aparelho não está a ser reconhecido, volta Batman que estás perdoado, já não sei bem se o chá noite tranquila não me anda a provocar efeitos adversos, Maria esqueci-me dos teus anos e não me perdoo, esqueci-me dos meus três anos de tasca e pronto comi uma almôndega de bacalhau para me recuperar e um copito de três, Ludovina comecei a fazer uns gargarejos com água salina a ver se a coisa vai ao lugar, e não há vampiro ou lobisomem que eu não pape ao petit déjeuner desde tenra idade, Claire como é que eu consigo tirar os restos de tinta debaixo da unhas sem ter que as limar até ao sabugo?, Soslayo os gajos da TV cabo codificaram-me a RTP Madeira, ai Mar e mar há ir e voltar e eu tenho fé até nos senhores da Clix, a ver, Shark pá, os gajos merecem lambadas e pontapés até mais não que só se lembram das coisas depois da casa arrombada, e eu começo a ler mal as letras pequeninas, e aloc meu filho, já valeu a pena o silêncio para te pôr os olhos nas letras.

Haja fé.

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

WC

Depois das férias mesmo sem querer fazemos balanços. Pomos tudo na balança e soltamos depressa a presilha travão. E mareamos por ali um bocado na vã esperança de que até ao fim do ano tudo se torna levezinho e sem espinhas.

Puro engano.

Ele é as contas, os atrasos diários e fatigantes, as atitudes míseras dos mais queridos descobertas meses depois, os gajos dos seguros que nos atrasam desprezivelmente a mudança de rotina com merdacas imensuráveis e completamente desprovidas de qualquer lógica, os estupores daninhos que fingem trabalhar mais do que nós apenas porque a malta até foi de férias e abjectos mastigam frases tipo, eu já nem me lembro das minhas, nem sei o que isso é, mesmo que tenha apenas decorrido apenas um mês que estiveram esticados na areia biliosa de um Algarve algures. -E as tuas foram boas? Já acabaram não é?...

- Foram óptimas. Acabaram, mas, eu até já tinha saudades de vir para aqui abandalhar a coisa vejam lá pr’o que me deu. Vocês sabem lá as saudades que eu tinha disto, pá!

- Tu só podes estar a brincar!?

- Não pá! Este é o meu sítio favorito, o local indicado para a minha bipolaridade, a minha metade da vida, o meu pace-maker, a casca da minha laranja. Ele há coisas fantásticas não há?!

- Vai cagar Joana!

- Tá bem, eu vou :o)

Domingo, Agosto 26, 2007

Azul


Detesto esta segunda pele em neoprene que me tolhe os movimentos em terra, a mescla de cheiros que emite a quente quando a arfar sufocada me enfio neste saco meio embrionário. Os dez mergulhos resultaram num tique chato que me faz não vestir decotes justos ao pescoço sem que não esteja inconscientemente a alargar o padrão.

Este é o lado negro da cena.

O lado de lá cenário de um azul imenso do outro take, é para onde me deito de pés ou de costas, a inspirar ar engarrafado ou a morder um tubo fálico que aspira o ar à superfície.

Questão de tempos.

Como o tempo que demoro a deixar que o mar me funda contra o vazio que me acena.

Escorrego devagar até uma das bases e borbulho já calma no principio silencioso. E é ali, lá, aqui ou acolá, que me deixo envolver já neutra no líquido amniótico, enquanto a mescla profusa de seres com barbatanas rodopia e me cumprimenta em estranhas danças de salão.

Quarta-feira, Agosto 15, 2007

Humm...onde é que o gajo se meteu?!


Ando ocupada.
E as queijadas da Graciosa...ai...ai...

Sábado, Julho 28, 2007

4 horas antes de entrar de férias e nem tudo o que parece é

(3,45h AM)


- Olha aqui, sentes?

-Põe a mão aqui por baixo, puxa pá!

-Puxa para baixo, puxa!

- Sentes uma coisinha dura? Ora põe a tua mão em cima da minha.

- Põe a mão por baixo e deixa 2 dedos livres. Toca agora com o polegar e o indicador.

- Não sentes lá uma coisinha dura? Segura aí.

-Estou a vê-la, branca tipo tirinha.

-Puxa pá! Porra! Tens que ser tu a a fazer isto, passa para aqui.

- Lava. Dá-me essa merda, pá!

-Baixa aqui, puxa para baixo…isso…

-Aqui pá!...porra…

-Limpa-me que estou a escorrer.

- Segue a coisa, e só tiras quando eu disser.

-Tira agora devagar o que tens na mão.

-Dá-me outra. Outra pá, estás a dormir?

-Tira lá a tua mãozinha e vamos por isto a aquecer.

-Dá-me outra, troca e leva o estrado.

-Vamos escolher agora um bom sitio, tens aí o banco, e eu meto isto aqui assim…isso.

-Mexe-te! Sentes o coiso, agarra nisso.

-Apanha! Apanhado é apanhando, agarra. Apanha bem, bom!...isso…

-Calma…calma…comprida, dá-me a comprida.

-Dá-me só a pontinha da coisa, guarda e mete.

-Relaxa-mo.

- Vá, vamos lá!

-Isto é fino porra, quanto mais fino mais fura. Dá-me os pequenos e grossos.

-Oh querido, mete-me isso na perpendicular.

-Vocês estão a ver não estão?

-Espera, não te mexas.

-Fais attention!!

-Puxa até sentires a minha resistência. Alça, puxa!

-Larga isso que agora não interessa nada…

- Porra pá!

-Linhas!

-Fechar!

-Porra…estou molhado até lá abaixo…

(4,45h AM) Vagotomia e piloroplastia

Terça-feira, Julho 24, 2007

contra os apontamento de cor


-O uso de meias ou soquetes multicolores é uma afronta pr’a profissão!

-!?

-Sim! Decerto que a colega deve concordar que, usar meias ás riscas com passarinhos, coraçãozinhos e florzinhas, juntamente com socos de cores, honra muito pouco a nossa profissão!

-!?

-Não concorda comigo?

-Está-me o colega a dizer então, que o uso de cores nas meias é indecoroso?

-Completamente! No meio das fardas, o uso de meias de cores com socos de cor é aberrante. Não nos dignifica. Eu de cada vez que olha para os pés de colegas nesta figura fico logo com pouca vontade de voltar a falar com eles. Quando vou ao bloco então é demais. Até parece que andam a gozar com as pessoas!

-!?

Ao olhar-lhe para as meias brancas turcas que brilhavam sobre as calças pretas, enquanto sentado devorava o rissol ás dez da manhã, depois de duas horas de seca sobre halogenados, só consegui fazer um esgar de dor.

- A colega não parece estar de acordo comigo.

-Desculpe. Mas, sinceramente não estou.

-Mas acha bem o uso de meias de cor?

-Nem bem nem mal, estou-me nas tintas. Parece-me pior ver os cabelos sedosos das gajas andarem a esvoaçar pelas pústulas, pelos sacos colectores, pelos estetoscópios dos médicos, pelos suportes de soros e pelos ombros de colegas com meias brancas, que ao fim da manhã até lhe passam a mão pela crina enquanto sorvem o café no bar.

-Já vi que não estamos de acordo.

-Pois não estamos. Já agora, eu trabalho em bloco há 20 anos, uso socos cor de laranja e meias ás cores, ando com os cabelos dentro de barretes verdes, uso mascara e roupas três números acima da minha medida. Não tenho o hábito de passar os doentes a fazer o pino, nem uso calções. Se lhe faz impressão as meias ás cores porque me olha para os pés, do lado de lá da cama?

- Porque é a primeira coisa que me chama a atenção, ora essa!

-Ah, assim faz muito mais sentido…

E como diria o outro senhor, (só em pensamento) foda-se!

Quinta-feira, Julho 19, 2007

tou quase lá...

Quarta-feira, Julho 04, 2007

Era uma vez


uma vida repleta de fragmentos áticos, num mundo emurchecido amalgamado segundo a teoria do caos em múltiplas arcadas facetadas. Mas um dia talvez depois das chuvas, entumeceu-se, criou raízes aéreas, arejando-as sem pudor tal qual feridas gangrenadas, acto de permissão suspenso, andarilhadas dali para a crosta superficial, onde permanecem enfim serenas no limbo morno da dor já reconhecida, somente.

Naquele dia fora do calendário da vida de todos os dias confiei-me e confiei-te. O lado esquerdo maltratado do coração escolhou-se em ti, enquanto os escolhos do lado direito afastados te deixaram passar de mansinho na água rasa.

E agora, deixa lá de brincar aos aviãozinhos e volta para casa já e deixa-me fingir que sou uma gaja fraquinha e que preciso de um peito másculo onde encostar os temores e os humores.

Terça-feira, Junho 19, 2007

emo

Comecei por não perceber a insistência e fixação da minha mais nova no verniz castanho.

– E porque é que não posso usar, e porque é que achas que não devo usar, e porque é que achas horrível, e qual é a tua de não me deixares e porquê, e não posso mesmo usar, e qual é o mal, e todos usam, e, e, e, e.

-Argh! Chega de conversa sobre o verniz. Tens doze anos e não vais para a escola com as unhas dessa cor, assim como também não te deixo ir maquilhada, nem a cheirar a suor. É simples.

Cedeu a rosnar debaixo da franja que invariavelmente lhe cobre o olho direito, meticulosamente alisada todas as manhãs com as placas de desfrisar, a combinar com a camisola cheia de caveiras cor-de-rosa e os ténis aos quadradinhos daqueles que os talhantes usavam há muitos anos atrás. Três manifestações, seguidinhas de uma quarta põe qualquer um com o alerta laranja em rotativo. Esperei, interpretei sinais, muni-me de toda a paciência do mundo, e depois levei com a medalha de mãe metediça, incompreensível e controladora, apenas porque não a deixo passar tardes completas no parque da cidade como os pais dos amigos deixam.

-Pois lamento em preocupar-me. Mas é assim o jogo cá em casa. Tanto me dá como se me deu, que os teus amigos passem a tarde fora de casa, que não estudem, que não ajudem em casa, ou que se dêem mal com as mães bichos papões cotas emboloradas de cabelo à rapaz que assim dá menos trabalho e é à mãe de família.

Esta guerrilha de hormonas é lixada. Eu estou treinada, ela há-de estar.

Ando a digerir esta fase dela ser emo. As posses do fácies triste e pensativo, a boca apetecível voluptuosamente atirada em coração para os sete megapixeis, os noventa e nove amigos do hi5, o síndrome do punk rock rosa choque, do eu emo-te, tu emas-me, amo o mundo mas o mundo odeia-me, da histeria minoritária das amigas para sempre e mais além, da caveira com a tiara ou a coroa ou lá o que é, das meias riscadas nos ténis All Star, ciclope que forja raios apontados à progenitora, a curtir com os ya-ya,"dear diary, my life sucks”.

Esta cena não passa de uma (h)emorroida

Tirem-me deste filme, e já!

Terça-feira, Junho 12, 2007

O cinismo

Onde trabalho, bem como em mais dúzias de sítios semelhantes, a quantidade de pessoas produtivas está abaixo do nível critico. Não é novidade. O povo agradecido pela esmola continua a barafustar com a boca pequenina pelos cantos e pouco mais. Quando a lua vai alta e os chefes brandos já ressonam, os elementos perdedores roem pequenos despojos, salivando bactérias fétidas ininterruptamente sobre os comunicados internos, externos e, outra vias mais ou menos oficiosas de normas e aplicativos que nem para limpar o cu servem porque o papel é modelo A4 HP jacto de tinta especial. Arrotam sempre no fim, lá isso faça-se justiça.

Na manhã seguinte como fiéis servidores absolvidos pela neblina, escondem os nós dos dedos e fazem uso da saliva gelificada espalhando-a abundantemente nas omoplatas do respeitoso feitor do galinheiro. Também nada de novo a oeste.

De vez em vez aparecem bolos. Porque fazem anos, porque alguém fez anos, porque se lembrou apenas, porque o filho foi crismado e tinha lá tantos restos da festa e andam todos em dieta lá em casa, porque alguém lhe deu e pronto aqui come-se tudo, porque até há almas ainda puras e fazem isso há anos e prontes nada como açúcar para compensar merdas de frustrações que não se andam aqui a mostrar e que só existem porque a natureza humana é feita para sofrer, porque hoje é feriado do santo não sei das quantas, porque nasceu alguém, porque operaram alguém com êxito estrondoso e temos sempre que nos mostrar agradecidos àqueles anjos e fadas de mãos frias que foram uns santos tão mal que a minha mãezinha andava é só um agradecimento pequenino, e porque, ao fim de algum tempo alguém se vai embora de vez.

Nesta altura é que a coisa se torna hilariante.

Andaram aqueles filhos de uma grande puta a inventarem aleivosias contra a quase abalada todos os bocadinhos que conseguiram fazendo-a debulhar em lágrimas que chorar até faz bem desentope os canais, revirando os olhos de desdém ela só aqui fazia meio tempo porque quis, e no final de um turno já fizeram desaparecer um bolo de quatro quilos, que verdade seja dita até é uma boa merda seca que nem cornos mas até parece mal a rapariga ter-se dado ao trabalho de vir carregada com aquilo e agora ninguém comer.

E suspirando, limpam os restos da carcaça dos cantos da boquinha delicadamente envolta em batom do cieiro, com o respectivo dedo mindinho espetadinho que a gente aqui é fina.

P'ro caralho!

Domingo, Junho 03, 2007

para bater com a cabeça, prefiro estas

tela dali

Quarta-feira, Maio 30, 2007

Os meus tomates, e os tomates dos outros


Mandaram-me uns tomates. E não, não foi de Espanha, coisa que aliás acho uma parvoíce pegada, a luta dos tomates digo eu, foram reenviados ali do lado.

E agora que faço eu com três pares? Fitei-os à vez vendo-os a esticar e a encolher repletos de vontade própria e, enquanto lhe tomava o peso respectivo, lembrei-me disto.

A primeira vez que ouvi a expressão fulano de tal não tem tomates, deixou-me assim a modos a magicar no dito cujo que não os tinha, intrigada quanto baste para perguntar lá em casa se a história de não ter era uma anomalia adquirida á nascença, ou um acaso infeliz do destino, deve ser horrível decerto não os ter, e dói? Doer doía, mas era uma dor moral uma espécie de cobardia preguiçosa, em que não se tomam atitudes por falta de animismo ou desleixo.

– Ah! Pois estou a ver. E isso só acontece com os homens? Que não. Acontece a todos, homens e mulheres indistintamente, que a grande parte prefere não fazer a fazer o que quer que seja, embora depois passe a maior parte da vida a queixar-se do que não fez, do que lhe fizeram e do que deveriam ter feito.

- Mas as mulheres não têm tomates!

- Pois não, à primeira vista não. Mas essa expressão é antiga. Vem do tempo em que os animais falavam com as mulheres da casa, enquanto os varões andavam armados até aos dentes em quezílias hominídeas. Depois quando chegavam, coçavam demoradamente os ditos e gabavam-se pela noite fora dos feitos másculos.

-Oh avô, mas houve e há muitas mulheres de grandes feitos.

- Mas essas acabaram na fogueira, ou na descrença popular como mulheres homens. Qual é o macho que se preze que não se sinta injuriado por haver alguém sem tomates físicos, mostrar que sem eles consegue tomar trinta e tal decisões e atitudes numa hora sem espalhafatos?

-Isso é um disparate! Os tomates servem para a reprodução ou para serem mexidos com ovos.

-Isso, dizes tu menina, que já nasceste com eles.

E vai daí, embora dona de uns tomates hipotéticos, que ao longo do tempo me compraram bastantes dissabores, e embora ache a expressão pretensiosa, moralista e exclusivista, agradeço ao destino e à minha avô que por sinal os tinha bem grandes, o facto de ter sido gerada com o animismo suficiente, de forma a introduzirem-se com unhas e dentes na sequência de bases do meu ADN.

E agora tirem as conclusões que quiserem, e façam deles o que vos aprouver.

Bem hajam.