domingo, Fevereiro 23, 2014

Não me sinto um ano mais velha
Sinto-me um ano mais cansada. 
De ser explorada, abusada, enganada e ludibriada, extorquida, roubada e gozada com um cinismo que me corrói as entranhas.
Não me sinto mais velha.
Sinto-me mais amada, compreendida, responsável e liberta pelo grupo restrito a quem permito a convivência.

Não me sinto mais velha.
Sinto-me capaz de dizer não e dizer sim, e mandar à merda e dizer amo-te sem que o cérebro entre em contradição. E voltar atrás e refazer e deitar abaixo sem olhar para trás. Não permitir que me invadam e deixar que me mimem colo afecto e alma sem pudores.


Não me sinto mais velha.
Mas sinto-me mais lúcida.


E gosto-vos de maneiras diferentes, mas gosto-vos.
Obrigado pelos votos e, agradeçam ao Face a lembrança.
E, obrigado eu, por fazerem parte do meu crescimento cada vez mais crocante, mas com muito mais classe.
Abreijo-vos
Joana pestana

quinta-feira, Dezembro 19, 2013

Boas festas pelo corpinho todo

Vós sabeis que eu e o tal de natal, temos uma espécie de incompatibilidade feto-pélvica que nem a ferros é passível de ver a luz...
Porém, a sugestão induzida pela musiquinha tilintilante das renas e do tchi,tchi,cthi do rodado do trenó, desperta-me aquela paz apaziguadora de quem trabalha por turnos e, adora saber que a febre das compras está quase a acabar e os familiares obrigatoriamente vão fingir que se amam forever enquanto se ofertam meias e vinho do porto a martelo.
Para quem, como eu, está de festas no meio de vísceras e sangre, um grande bem haja ao "manino jasus" e com esta me vou, deixando-vos uma musiquinha ataraxeante.

domingo, Maio 19, 2013



máscaras


Ah! escorreita maldade enganchada no brilho da malícia que se prolonga insidioso, a máscara descolada de um dos cantos.
triste de quem se acha esperto ostentando a moleza do verme escondido entre as pedras e se calca ao passar…
triste constatação de saber antes e saber já…
mais um pequeno desapontamento...
mais uma realidade da pequenez da personalidade...
o adeus aos poucos do que já não faz sentido…
a máscara que te arranco devagar enquanto sangras...


quarta-feira, Maio 08, 2013



sei que não é agradável ler um rol de realidade atormentada pelo défice, que, é mais aprazível à alma ver fotos de sítios onde jamais iremos, cães e gatos amorosos e declarações estereotipadas mais ou menos bacocas dependo do estado das hormonas que nos gerem nesse dia.
Mas percam só um minutinho e a seguir ide relaxar o ventre na franca bisbilhotice da página gira, gira do vizinho...

QUE PARTE É QUE AINDA NÃO PERCEBERAM?

1-Sofia Galvão, no Expresso: "Quando se gasta mais do que se tem, há défice. Quando se pede dinheiro emprestado para acudir ao défice, há dívida. Quando se continua a gastar para lá do que se pode, o défice aumenta. Quando o défice não diminui, a dívida cresce. E quando não se corrige o caminho, o ciclo torna-se infernal, alimenta-se a si próprio e destrói todo o potencial de desenvolvimento, realização e esperança."

E mais adiante: "Hoje, em Portugal, os salários e as pensões pagos pelo Estado representam mais de 90 % da colecta fiscal." (Talvez haja aqui algum exagero.)

2-Não se pode ser mais claro. Mas faltam aqui duas componentes:

a) Porque é que se gasta mais do que se tem;

b) Qual o método acertado para diminuir o défice e a dívida.

3-Não há nenhuma experiência histórica de sucesso em que se tenha conseguido pagar dívida nem diminuir défice à custa de austeridade - sobretudo se for em doses brutais (como em Portugal e na Grécia). A austeridade desenfreada só conduz a recessão, que por sua vez pede mais austeridade, que leva a mais recessão, ... etc. (a famosa espiral recessiva - em que já estamos, como já foi reconhecido por toda a gente, até pelo Presidente da República).

4-Há poucos anos, a Islândia decidiu não pagar as dívidas dos seus bancos que se tinham entregado à especulação financeira imprudente: deixaram-nos ir à falência (após interessante referendo popular, que devia fazer pensar os nossos políticos) - e hoje já estão de novo em crescimento, e a sair da crise.

5-Em 2010, para acudir à dimensão do défice, a Roménia pediu ajuda ao FMI. Face às condições impostas por este para a "ajuda" financeira, decidiu recusá-la. Resultado: desde o ano seguinte ainda não parou de crescer.

6-Em Portugal os números destes dois últimos anos são tão arrasadores que se torna suspeita a teimosia dos nossos governantes: a austeridade não baixou praticamente nada o défice, fez disparar a dívida, arrasou o emprego, devastou a economia.

A própria Europa já está generalizadamente em recessão ou crescimento nulo.

Mas ninguém quer ver.

7-Pessoalmente, tenho uma teoria para explicar esta decadência da Europa: a geração que nela está agora no poder já foi educada mais pela televisão e pelo computador do que pelos livros - e portanto são essencialmente políticos parolos, deslumbrados pelo dinheiro e pelo poder, e ignorantes acerca do humanismo - que é contudo o traço mais profundo do ser europeu -, exactamente porque não têm estatura cultural nem sentido de serviço a causas, mas apenas a interesses.

Pagaremos estes erros e equívocos com a irrelevância - que, aliás, já se começa a sentir.

8-Voltemos então às duas componentes do n.º 2. e comecemos pela primeira.

Em Portugal, não se gasta mais do que se tem por se pagar bem demais - sempre foi, aliás, ao contrário. Exceptuam-se alguns salários de topo, verdadeiramente pornográficos, que deveriam envergonhar os seus detentores. (Este é, de resto, mais um sinal da nossa parolice: salários baixos muito mais baixos do que a média europeia, salários altos muito mais altos do que a média europeia. Relação média entre o salário mais baixo e o mais alto nas empresas alemãs: um para oito; em Portugal: um para 34. Não é preciso dizer mais.)

Em Portugal gasta-se mais do que se tem porque se pagam muitas coisas (e algumas pessoas) que não deviam ser pagas. (Ver nº 10.)

9-Provado que não se combate o défice nem a dívida com a austeridade - que, pelo contrário, só os faz crescer - e que subir brutalmente os impostos provoca menos receita fiscal - pois, afinal, o défice e a dívida só se combatem com crescimento, também já se percebeu que é pelo lado da despesa que é preciso atacar o "gastar mais do que se tem" (e assim entramos na segunda componente do n.º 2.).

10-Algumas receitas simples para diminuir a despesa:

a) redução drástica dos gastos com a defesa (a Costa Rica não tem forças armadas: tem um acordo de defesa com os EUA, em caso de agressão externa. Nós já não temos colónias e a Espanha não é um inimigo. A Costa Rica é só um caso para reflexão);

b) redução drástica das empresas municipais (já sei que é o mais difícil, porque é lá que se alojam as clientelas partidárias; mas é um imperativo nacional);

c) redução drástica do número de municípios (idem);

d) redução drástica do número de deputados à AR (é uma medida pouco mais que simbólica mas por isso mesmo altamente pedagógica). E também: pagar-lhes melhor, mas exigir exclusividade (impedindo quaisquer acumulações com outros cargos);

e) redução drástica das mordomias da maioria dos cargos públicos (os governantes e os gestores das empresas públicas podem bem ir para os seus empregos nos transportes públicos - também é um sinal pedagógico. Até nisto somos parolos.);

f) redução drástica das contratações feitas pelo Estado em outsourcing (aproveite-se a massa crítica nacional; tenham paciência os grandes escritórios de advogados);

g) diminuição progressiva do número de funcionários onde já são ou em breve se tornarão excedentários (professores, por exemplo);

h) estabelecimento de tectos máximo e mínimo para os salários e pensões públicos (digamos 10000 euro e 500 euro, respectivamente, para começar);

i) simplificação fiscal e administrativa séria e não a fingir.

11-Receita para fazer disparar o crescimento:

a) restituir os subsídios e os salários em vigor em 2011, e eliminar o confisco que é a contribuição extraordinária de solidariedade;

b) baixar o IRC.

Não é preciso mais. Verão o consumo interno a subir, as falências a estancarem, o desemprego a diminuir, a economia a crescer. Poderemos então pagar, pouco a pouco, o que devemos.

12-Sozinhos somos insignificantes na Europa. Mas juntos com Espanha, Itália, Irlanda, Grécia já somos "temíveis" para os burrocratas (sic) de Bruxelas ajoelhados perante a Alemanha. Com receitas destas, não será difícil garantir-lhes que pagaremos, sim, tudo o que devemos, mas com prazos e sobretudo juros decentes (digamos 0,5% ao ano, pagos ao BCE - que pode fabricar tantos euros quantos precisar; e se isso fizer baixar a cotação do euro, até que não era mau para a economia europeia...).

P. S. - Sabiam que na Alemanha as pensões dos reformados não são propriedade do Estado e por isso são intocáveis? Está na Constituição alemã. Olhem que curioso... 

MIGUEL GRAÇA MOURA, MAESTRO

dn

segunda-feira, Abril 29, 2013


E mesmo que a vida nos transforme em pedra, é favor congelar o movimento na cortina da janela que se abre e que se oferta…

(vim do espelho e a ele voltarei todas as vezes que precisar de mim)


domingo, Abril 28, 2013




a pensar......o tempo de perceber que, a normalidade da minha anormalidade é mais normal que o normal que seria sugerido...

domingo, Maio 06, 2012

A Ira



A ira invade-me de uma maneira menos graciosa. Não é súbita. Nascida de um roer de precedentes que abre chagas velhas no espirito. Estrangula-me aos poucos até que as células gritam invadidas de cobiça vingativa. Expandem-se gulosas. Sufocadas, subjugadas pela fachada que ostento altiva. Estou tão furiosa como calma e, isso chega a irritar-me.
Há muito tempo que não se metiam comigo assim deste modo, cínico, pernicioso, mesquinho, pouco inteligente.
Gosto...assim.
Traz ao de cima o pior que tenho. Estava a precisar de uma "luta" desonesta em que à partida o opositor ainda não percebeu que já está morto.

terça-feira, Dezembro 20, 2011

2012

NÃO TE Vou DESEJAR UM FELIZ ANO NOVO.

Não vou desejar que no próximo ano encontres a paz e a felicidade permanentes. Não vou desejar que superes todas as tuas metas e venças todos os desafios, encontres alegria no amor, fiques rico e que sejas sempre a pessoa mais bonita e simpática do planeta (mas vou desejar-te saúde. Porque com a saúde não se brinca).
Este ano, quero desejar outra coisa…
Desejo que olhes para trás e vejas tudo o que aprendeste. Que te lembres de todas as pessoas que te apoiaram e quem foste em todas essas situações.
Que determines a vida que queres levar. Não é a que estás a levar agora, ou a que os teus pais querem que leves. Ou o teu parceiro(a). Ou os teus amigos. Ou a tua comunidade. Para e, pensa na vida que realmente queres ter.
Reconhece as características pessoais que não gostas e aprende a mudá-las (ou a aceitá-las). Tu podes ser uma pessoa melhor todos os dias. Por que quem tu queres ser já está dentro de ti, então, procura, insiste e não desistas.
Sim, um ano inteiro é muito pouco para tantos desejos.
Não vou desejar que 2012 seja o melhor ano de todos os anos da tua vida.
365 dias é muito pouco para todas as conquistas, todos os desafios e tudo o mais que desejas fazer, ser e ter.              
Escolhe as pessoas que te acompanharão. Aquelas que agregam, que te dão apoio em todos os momentos. Escolhe as que queres ao teu lado e querem estar ao teu lado.
Descobre o que te dá prazer e trabalha numa constante no teu dia-a-dia.
Faz o que amas e ama o que fazes.       
Então, vamos lá. Procura dentro de ti a força que precisas. Suspira fundo e arranca.
 Começa.
Agora.
A tua vida está à espera e tu não tens todo o tempo do mundo, infelizmente.
Joana Pestana

quarta-feira, Novembro 09, 2011

Inconfidências II

Por três vezes na vida perguntaram-me se foi bom. O chamado banho de água fria. Está ali a malta a tentar recuperar o folego num estado que se pretende ser de semi embriaguez e tufa!
- E então, foi bom?
À segunda vez fui sincera. Ainda hoje o desgraçado deve frequentar o psiquiatra.
O meu primeiro namorado tinha a mania que era um garanhão. Não nos suportávamos de princípio. Depois, mais por birraça minha, que era assim a modos que a pata feia convencida que era muito inteligente e que não precisava de ser gira e ultra feminina para sacar um gajo que na altura era o top mais da zona, andei a montar a armadilha e o rapaz caiu.
Em casa, eu, não tinha autorização para sair, por isso era pela calada da noite que me esgueirava pela janela, fazendo a criatura estar horas à minha espera no carro, andava doidinho, dando-me uma sensação de poder indescritível.
As minhas amigas andavam de queixo caído e invejosas, porque a pata feia de cabelos crespos cortados numa espécie de bola à Boney M, que não usava vestidos ou um mero hidratante para as sardas, já tinha vinte e um anos, velhíssima, agora é que mandava no esquema.
 Antes disto eu queria era subir às árvores, remar, andar de bicicleta e palermar com as amigas (até parece um anuncio do Tampax) que já tinham todas namorado na altura.
Eu adorava não ter. Aquelas ligações que achava serem demasiado dominadoras para mim, eram prisões, peias controladoras onde estás com quem estás a que horas, amas-me, não me amas, malmequeres desfolhados em tardes mornas e corações partidos.
 Mas, estava na altura de saber o que era e como era, afinal eu era velhíssima estão lembrados decerto, dou por mim a olhar para o tecto do carro a magicar que a coisa não podia ser só assim e que estar a pensar na nicotina que pejava o tecto também não era normal, sou reportada à realidade pelo rapazola cinco minutos depois que pergunta então se foi bom.
Descobrir que o bom, seria ele, e não o acto em si, levou aí uns dez minutos a processar, foi a modos que estranho, após quase 6 meses de namoro à sexta-feira lá expliquei da maneira menos agressiva que consegui, que não, que nunca tinha sido bom pelo menos para mim que ele sofria de ejaculação precoce mas que há médicos que tratam disso e tal que continuaria a ser amiga dele mas que a nossa intimidade acabava ali obrigadinho.
O desgraçado nessa noite bateu com o carro num sinal, eu fiquei uns tempitos com um pequeno remorso, a irmã perguntou-me umas semanas depois se eu lhe tinha dito alguma coisa nessa noite, que o rapaz chegou a casa com uma batida no carro que andava estranho e de orelha murcha, agora que falo nisso não me parece ter sido só a orelha, e ainda hoje recordo o chiar das rodas do Golf GTI vermelho no empedrado da calçada ao abalar e eu ali especada a respirar que alívio pá...que alívio.
Encontrei-o depois ao longo da vida muitas vezes na rua, ele sempre com aquele ar de quem come o mundo e eu com aquele sorriso cínico de quem sabia que a parecença com os coelhos não era meramente por causa do tamanho das orelhas.

sexta-feira, Outubro 14, 2011

Não me fodam, pá!

Continuo a gritar que somos um bando de fracos costumes, ovelhas, porcos e vacas que pastam em pastos verdejantes como diz o Sr. Silva. Levantamos os olhinhos do chão e quem nos olha vê um brilho de felicidade uma boa aventurança que o verde raquítico do pasto reflecte nas pupilas.
Ontem depois de mais uma comunicação por altifalante à manada, em que não por mero acaso estava de serviço, e sim passo a vida no serviço a digerir falsos profetas, e sim não levo nem lá perto o ordenado base para casa, esdrúxulos mal paridos e mal formados que a educação não advêm de quantos anos andámos a passear os livros debaixo dos braços, os comentários mal se fizeram esperar que para comentários e caganças somos nós os maiores. O governo assim o governo assado, o governo frito, o governo parido vomitado cagado, o governo ladrão aldrabão, oh Salazar anda cá abaixo ver isto, dantes é que era, dantes é que coiso, agora nem p’ras férias e brinquedos, alvoraçados/as entre gargalhadas, pão com manteiga e revistas de moda e receitas da Bimby, num cacarejar absurdo e meramente produtor de saliva …
Camus escreveu:
 Existe uma parte do homem que não tolera a humilhação e o empreendimento essencial da revolta consiste em «substituir o reino da graça pelo reino da justiça». A revolta denuncia o absurdo. Mas a revolta surge mais como posição de defesa do que de ataque. Perante o absurdo, que atitude tomar? Camus imagina três possibilidades: suicidar-se fisicamente, suicidar-se metafisicamente (como a mãe de Jacques) ou manter-se no absurdo. Rejeita as duas primeiras possibilidades. «É preciso viver no absurdo. Como? Instaurando a revolta, a liberdade, a paixão. A revolta é protesto».
A inconsciência colectiva anda a corroer-me a carcaça. As manadas destrambelhadas fazem mais estragos do que é de supor. Não quero de todo que se vistam de preto carregado, nem que solucem agarrados ou que deixem de postar mais uma etiqueta afirmativa em que meia dúzia de seguida clica em “gosto”. O que eu quero é que deixem de me falar em produtividade, motivação, contenção, bonomia, assertividade, bom senso e outras merdas que a minha avozinha fez questão de me ensinar em pequenina, e que não debito inconscientemente no dia-a-dia sem fundamentações efectivas, papagueadas sem nexo só porque sim.
Não admito é que mais de uma centena de filhos da puta que gerem este país, (que nós continuamos a eleger e a aplaudir) que nem sequer se atrapalham nos corredores do Ministério, porque nem lá metem os pés, que vivem à grande e à francesa venham com falinhas mansas atirar-me com patacoadas.
Se me foderem que me beijem antes, não me atirem mais terra para a cabeça…

A estadia Parte II



Prometeram-nos uma ambulância a sério. O médico rejubilou para murchar de seguida, a dita era na realidade uma carrinha moribunda que fazia as vezes de táxi, carrinho de compras e transporte semi-funerário, que ostentava uma garrafa de gaz na parte superior da maca (?) periclitantemente enrolada num cinto de segurança que já conhecera melhores dias…
 Logo após o marroquino ter retirado papéis, telemóvel topo de gama, e outros acessórios que não me recordo, cavalheiramente dispensaram-me o lugar do morto, arrancámos à velocidade furiosa de um supersónico gaguejante, enquanto o médico fixava dormente o CD brilhante que rodopiava pendurado no espelho retrovisor, agarrado miseravelmente à rede que o separava da cabine.
O arranque, a travagem, o ziguezague contínuo, as apitadelas de dois em dois metros, o vermelho psicadélico dos sinais deixados para trás, a rasante aos passeios de levantar túnicas, rodopiar os cirwal e os xador, o cheiro quente do coentro da canela e das especiarias, enquanto freneticamente procurava o cinto, e o maldito se ria enquanto atendia o telemóvel, fez-me soltar a verborreia em francês, quando me apercebi que o gajo deixava de olhar para a frente e espalhafatosamente exibia mais um ziguezague gritando: - n'ayez pas peur que je conduis bien, et nous n'avons pas ici l'utilisation des ceintures de sécurité !  
O rádio Blaupunkt continuava na sua lamuria em marroquino e, eu já zonza finquei os pés no fundo da “ambulância”em quase pânico. O hospital da zona é militar, portanto mandaram o sinistrado para um hotel, virado para o mar, do outro lado de uma rua imensa sem passadeiras visíveis, inundada de replicadores perfeitos do suposto “bombeiro, rapaz de entregas, mecânico, ajudante de cozinha, guia”, deixando-me do lado de cá, carregada com a maca dura desinsuflada nos braços a olhar bovinamente a rua pista-carrinho-de-choques, enquanto o marroquino do lado de lá, o gajo tem asas só pode, gesticulava frenético de canelas ao ar. Ainda não vos referi que a criatura ostenta um sorriso prazeiroso com dois dentes de oiro e três cáries, mas quando fala ao telemóvel não se nota porque é daqueles de abrir e metade está em cima da boca e eu não me lembro exactamente como passei para o outro lado. Adiante…
Já no hotel e numa salinha que continuava a olhar para o mar, estava o sinistrado com ar europeu ruborizado e dorido, de amena cavaqueira com o companheiro de viagem, sentado numa cadeira a beber chazinho que faz bem aos nervos e às três costelas partidas, a rebolar os olhos da seca que era agora a mota ter que ir de reboque até Portugal e coiso, veja lá que maçada, tínhamos já combinado ir até ao Congo, que maçada, trouxeram a ambulância? que sim dizia-lhe o médico de estetoscópio em punho. Pensei de imediato certificar-me se continuávamos a ter retretes turcas por ali, mas os preenchimentos burocráticos que um dos seguranças árabes com dois metros e cento e setenta e quatro quilos me passava firmemente um a um impediram-me, seguidos de um oh Sra. Enfermeira dê já ao sinistrado um Nolotil que isto dói de certeza puseram-me de imediato a rebolar também os olhos, que maçada, não conseguiram chegar ao Congo, que maçada, estou para ver onde é que o cabrão do marroquino vai enfiar a garrafa de gaz, que maçada…

terça-feira, Outubro 11, 2011

A ida Parte I


Depois de ter percebido que não valia a pena ter-me vestido de branco virginal para fazer uma evacuação de transporte aéreo de um sinistrado de Marrocos para aqui, já era tarde. O médico apresentava-se de roupa género na volta como uma sandezinha de leitão na Mealhada e, apenas os pilotos mantinham a fachada da camisa branca com calças azuis e gravata. Quando a porta do avião se abriu no deserto que era a pista, e tudo o resto aliás, a onda de calor disparou insana para dentro dos pulmões e das córneas, deixando-me automaticamente cega e a arfar, transpirada até às cuecas como se tivesse vindo a pé do Bangladesh até ali. A pista salpicada de jipes militares velhíssimos, albergava árabes armados de metralhadora, que acenavam de uma maneira pirosa e nada reconfortante.
Quando consegui pensar algo do género, ai a minha vida, decidi que a partir dali qualquer protocolo estapafúrdio, que inclui-se fazer sempre uma vénia à fotografia do Rei pespegada no meio de flores e de tapetes nas 7.865 tendas que fui encontrando na jornada era para cumprir a preceito e sem desculpas de calor ou poeira ou moscas, que o rei está primeiro em tudo e pelo sim pelo não baixa outra vez a vista e faz um ar moribundo que assim pode ser que te safes.
A base do aeroporto, e aqui estou a ser fantasticamente benevolente, era uma espécie de alfandega pardieiro, com direito a usar um daqueles buracos no chão a que pomposamente chamam retretes Turcas capazes de tornar qualquer ímpio num ardente crente, ao acocorados de pernas em X desatar a pedir á virgem Maria para que num acesso de uma coisinha má a malta se tiver que cair, que seja de cabeça para a frente e não para trás naquele buraco que de repente se torna um olho gigante de ferrugem e de restos semi-secos de pasta a identificar noutras núpcias. Saio de mãos molhadas a pingar lentamente o chão enquanto o meu passaporte está a ser espiolhado até ao tutano, remirado e folheado com a religiosidade de um Corão, por detrás de uma barreira aquário de plástico e alumínio salpicado de cagadelas de moscas, fazendo um esgar que pretende assemelhar-se a um sorriso, o árabe responde-me na mesma moeda e depois de não sei quantas perguntas em francês muito contrariado devolve-me o dito. O médico nos entre tantos qual pilha eléctrica humana repetia sucessivamente em português que a gente não pode em circunstancia nenhuma ficar sem o passaporte, como se aquele quadrado fosse o bilhete mais directo de entrada no céu depois de levarmos um tiro na nuca. Nesta altura do campeonato já era eu que lhe dava facilmente um…

sexta-feira, Outubro 07, 2011

Etiquetando

A raiva é um contratempo, uma forma de vazio que custa a engolir. Um sapo na garganta a espernear nas convenções moralistas. A raiva que já foi necessária para a sobrevivência do homem em tempos idos, agora é denegrida porque é irmã prima da inveja, da fúria, do rancor, do ódio e da crueldade.
Se sinto raiva? Sinto. Da pura da nua, dura e inapta, desenvolvida e manobrada ao longo do crescimento pouco harmonioso. Controlo-a em esforço, em arranques, nuns dias mais, nuns dias menos.
Tenho-a guardada em gavetinhas catalogadas. Teimamos em perder tempo estupidamente e, um dia acordamos e não reconhecemos a cara enrugada que nos olha de sobrancelha franzida. Por isso catalogo-as minuciosamente. As gavetas.
Dizem-me que a raiva é inútil, que se pode desmembrar em partículas que o vento leva. Que se cura, que se delega, que se perdoa. Esforço-me. Tento. Miséria das misérias, em vão. Quando acho que aprendi, tufa! Regressa brutal e agónica.
Se é o quero para a vida? Não. Adapto-me aceitando-a como filha, simplesmente.

quarta-feira, Julho 20, 2011

Ela caminhava entre os carreiros da vinha, absorta e de olhos vagos, depenicando de vez em quando pequenas bagas de uva preta. Nem sequer limpava o pó e excrementos de insectos nas calças antes de as trincar insatisfeita. Uma, depois outra e outra e outra. Isso era dantes. 
Antes de se sentir morta por dentro.

Gerido o caos, agora orgulhosa da nova ordem estabelecida, porque voltou esta espécie de desordem emocional sufocante, a fera insatisfeita do instinto a mastigar-lhe insidiosa a pele da nuca, as gavetas novas e velhas da memória num frenesim de abre e fecha?
O que me andas tu a fazer cobardemente pela calada que eu não sei, mesmo sabendo?

sábado, Maio 14, 2011

rama fresca e pé bichado

E que tal, escrever a história sem andar às voltas?
a verdadeira como quem não vai dar a ler sem arrazoados conscientes que te fecham?
e depois...se te apetecer guardas, ou deixas aparentemente esquecida na mesa da entrada.  Há sempre uma alma curiosa. Sabes que jamais poderemos sobreviver sem ego, super-ego e outros umbigos circunflexos. Sentimos-nos grandes ao compararmo-nos com alguém que nos parece inferior?
E é inferior porque é diferente?
É através da maledicência, mesquinhez, e pobreza de espírito que nos tornamos mais altos?
Enganar-me enquanto floreio o engano aos outros é, converter-me ao estado vegetativo da rama fresca e pé bichado.
A realidade não é ridícula! A utopia é que sim. Que se fantasie para adocicar ainda papo.
Mesclar lambuzadas de fodilhas com braguilhas, não.
Queremos parecer ilhas isoladas.
Ás vezes somos nós que isolamos as ilhas.
e nem sempre são as ilhas que nos isolam a nós...
Daí o outro senhor cantar que só estou bem aonde não estou.
Encaremos esta etapa como o Inverno, o tempo de ler cá dentro.
E façamos desta cerimónia do chá o tempo que dela quisermos.
A vitória faz-se de várias guerras, não é?
Por fim lambem-se feridas.
assim tomo-lhos o sabor, saboreio-lhes as células para as detectar, arranjo assim anti-corpos de borla.
Arranhá-las só provoca sangramento.
A exaustão, deriva do conhecimento do sabor e do cheiro.
Facilmente farejáveis ao longe, dá-te tempo de pegares na tábua,
e de lha enfiares no focinho.

sexta-feira, Março 26, 2010

Eu sei quem é a Irena...

O meu avô era comunista. Sem ser ferrenho idolatrava a independência e a igualdade entre os povos, e religiosamente guardava no fundo de uma arca, livros e transcritos proibidos pelo regime salazarista. Educou-me de forma pouco ortodoxa. Ensinou-me a ver as pessoas como um todo e depois por partes, passiveis de compreender e de castigar quando o acaso exigisse. Fez questão de me contar o medo e a brutalidade da guerra, da mesma maneira como me mostrava a fragilidade da metamorfose da lagarta em borboleta.

Interessei-me quase patologicamente sobre relatos e series dementes sobre a bestialidade do ser humano, praticados durante a 2º guerra mundial. Eu era a heroína que salvava o mundo da intolerância.

É o nono email que recebo num curto espaço de tempo a perguntar se sabia quem era Irena Sendler.

Resposta:

- Sim sei há algum tempo, e relembro-me quando foi dada a notícia do seu falecimento em 12 de Maio de 2008.

Sim, leram bem. A dita morreu há quase dois anos. E não era alemã, era Polaca nascida na Polónia em 1910, uma completa desconhecida durante muitos anos para os polacos, que passaram a render-lhe homenagem a partir de 2007 altura em que o seu nome foi proposto ao prémio Nobel da Paz.

Fiquem também a saber que o” memorial israelita do Holocausto, o Yad Vashem, lhe entregou em 1965 o título de Justo entre Nações, destinado aos não judeus que salvaram judeu”.(Pesquisem na net que chegam lá)

Mais uma curiosidade acerca de Irena. Não era canalizadora, era assistente social antes da guerra e, trabalhava com “famílias judias pobres de Varsóvia, a primeira metrópole judia da Europa, onde viviam 400.000 dos 3,5 milhões de judeus de toda a Polônia”, em Varsóvia. E foi com a ajuda de bombeiros e de camiões de lixo, que as crianças eram retiradas do gueto e abrigadas em conventos ou entre famílias católicas. Fazia então parte do movimento de resistência Zegota, (Conselho de Ajuda aos Judeus).

Foi presa em 1943, torturada, presa e condenada á morte, sendo sido salva por um dos oficiais alemães contrário ao regime hitleriano. Viveu sobre identidade falsa até ao final da guerra, e continuou a trabalhar como supervisora de orfanatos e no seu país.

Por isso, meus caros, façam-me o seguinte carinho. Eu sei que a maioria gosta de correntes e reenvios de correio. Confesso que há alguns que me dão gozo reencaminhar, pela originalidade, pela imagem, pela estupidez ou apenas pela preguiça de escrever que ainda vos gosto, e mando-vos mais este email para saberem que ando por aqui e tal.

Mas destes, eu passo. Já tive a minha cota parte de horror, vivo ainda com uma grande parte dele, sei coisas a mais que não devia saber, e recuso-me a reencaminhar o passado. Lembrem-se que o cérebro guarda e encaixota e só se esquece se nós quisermos. Eu sei quem era a Irena, o Oskar Schindler, David Bankier, Andrée Peel, ou até tristemente Victor Capesius, apenas para citar um numero ínfimo .

E voçes sabem?

quinta-feira, Dezembro 17, 2009

Faz de conta que


Quem me conhece, sabe que esta época é considerada uma espécie de sequela ao filme "Abate ao inimigo público nº1 …a ganância", de nickname, Natal.
Porém, para quem gosta e faz por acreditar na fé e no próximo, vamos uma vez mais dar as barbatanas e, jurar pelas alminhas, que o próximo ano vai ser recheado de coisas enigmáticas e concretizáveis.

Festas felizes pelo corpinho e, que alguém vos acompanhe desde já.
Beijos e abraços e coisa e tal e bagos de uva! (já vai assim incluído o desejo da outra cena fantasiosa que se chama passagem do ano)

Desta vossa e ao dispor
J. P.

quarta-feira, Setembro 16, 2009

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Eram três e meia da manha, e a madrugada fresca convidou-a para o ultimo cigarro antes de deitar. Tinha estado a matar a insónia vendo um filme lamechas, daqueles onde o amor acontece inesperado, embora não tão inesperado que nos filmes acontece sempre assim, depois de uma piscadela e de um copo de conhaque, que filme romântico mete sempre irlandeses altos e de lábios grossos enrolados num cachecol que roça os joelhos e serve para dar quatro voltas ao pescoço longo, e a gente fica de boca aberta a imaginar as voltas que a lã teve que dar e coisas assim absurdas, enquanto os lábios ficam mais rosados do frio, evidentemente, que há sempre neve e pegadas brancas e lareira a crepitar para nos aquecer o corpinho palpitante e o cachecol enrodilhado na nuca lá mais para o fim.
Apagado o cigarro, fez do telemóvel lanterna e devagar subiu os degraus para o quarto, atenta agora nas peúgas turcas que lhe sobravam quatro dedos para a frente fazendo-lhe um pé de barbatana de Beluga e já só se ria estupidamente que àquela hora qualquer merda já tem graça, ver-se de calções sorrateira e pés de meias turcas velhíssimas, aos toques no aparelho, para reactivar a luz desmaiada.
Despiu-se no hall e enfiou-se na cama evitando a zona central, que já range um bocadinho ao sentar, deixando que o calor macio e relaxante que vem do lençois aconchegue sorrateiro o seu corpo nu. Suspira, sorri e adormece plácida.