Quinta-feira, Junho 04, 2009

A humanidade não é uma ilha, dizem.
Eu digo que sim, acobertados pelos status quo, arrastamos insipidamente a carcaça com pressupostos adjectivados. De quando em vez esticamos o tentáculo para alimentar o estômago, o ego, a vaidade.
E temos pena, não piedade, daquele que se deita na calçada suplicante ao contorná-lo rapidamente.
A dor é pegajosa e imunda.
Ao chegar a casa uma vez mais percebemos que, a nossa pobreza não está nos zeros do cartão de crédito, mas sim no nosso triste espírito egocêntrico.

Domingo, Março 08, 2009

E por um mero acaso, não por ser dia- eu sei- que todos os dias são partes e partes dos dias são um todo, e o todo é aquilo que aparentemente nós somos no todo de todas as partes.
Merci Obelix.
Assinado
O Bardo

c'est moi ...Obelix disse...

Não é por ser Dia da Mulher
Não é sequer por ser dia
É "apenas" porque adoças os meus dias e o meu ser
É porque me fascinas...
É porque me espanta o teu sentido de beleza e a tua arte, que cambias em várias formas e feitios...
É porque me agradam as nossas conversas de humor retorcido e não tão aparente...
É porque lutas e te bates
É porque choras e me abraças
É porque acordas humorada...
É porque ris à gargalhada...

...és a minha vista para o mar

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

A verdade da mentira

Chegou então a altura do cair do mito. Podia até ser das folhas, mas ainda não estamos nessa época gloriosa dos laranjas e dos amarelos e dos marmelos embora nestes últimos dias o cheiro pestilento que as ruas cá do burgo exalaram me tenham lembrado sem querer, o tempo em que na adolescência nos deliciávamos a partir uns frascos minúsculos de vidro na sala de filosofia. O cheiro nauseabundo de gazes putrefactos que provinham directamente de intestinos em decomposição era deveras estonteante e, as minhas poucas células cinzentas ainda em funcionamento ainda se riem alarveirosamente ao recordar o olhar esgazeado da velha professora, já completamente histérica, que achava que o melhor castigo era fechar-nos a todos lá dentro. Sai mais uma garrafinha de mau cheiro para a mesa da frente. Adiante.
Eis findo o prefácio das verdades e das mentiras.
Comecemos.
A nº 1 é mentira. Não foram 8 mas foram 5. E não contam as casas de férias. Essas para mim não são casas, são pequenos apeadeiros onde pernoitei, alugadas, que deixaram de existir há mais de três anos pois já sou chulada que chegue pelo governo anualmente.

A nº 2 é verdade. O meu pai era cangalheiro, encomendava sempre face to face os ditos de pau-santo-preto-ou do que quiserem, lá para os lados do Porto. Era habitualmente ao fim da tarde e a dois, que se iniciava a lendária odisseia das sete horas em estradas que não lembram ao diabo. E uma noite o Mercedes entrou debaixo de um camião que iniciou a curva em contra-mão. Três horas depois de alicates em chapa e angústias paternais, levaram-me para a unidade do São João com um traumatismo craniano -percebem agora decerto como está tudo interligado.

A nº 3 é mentira. A mais horrenda e agoniante mentira que já preguei. Odeio banana! Mas assim a odiar mesmo, pele de galinha, revolteio estomacal com saliva biliosa e tudo. E com laranja - que só marcha em forma de sumo - e bolacha misturada é, puro suicídio.

A 4 é verdade. Por mais macabro que o imaginem e sem nexo, a melhor forma de defesa depois de uma automática é uma que não faça barulho. Sou parte das estatísticas de violência doméstica, e tenho noites em que ainda acordo de salto pronta a zarpar.
Não há cura no silêncio e auto-suplício e eu, aprendi a defender-me.

A 5 é verdade. Uma das minhas cadelas ao cair de barriga em cima de uma Yuca, perfurou um intestino ficando parte do pico lá enfiado. O veterinário de urgência estava sozinho nesse sábado, e só me restou ser o seu ajudante -Isto é muito parecido ao que tu fazes. Ajuda-me por favor ou ela morre.

A 6 também é verdade. Embora me levante ao primeiro toque o horário está sempre na corda bamba. A malta mija e no entretanto vai lavando a dentuça. Um bocado buçal confesso.

A 7 é verdade. Estava a entrar de turno, ainda na estrada de terra junto à quinta onde morei. A vaca desde manhã que mostrava sinais de parto iminente, mas agora urrava e espumava deitada com uma das patas do vitelo de fora e, nada. Não entrei na cerca borrada de medo, mas a taquicardia quase me fazia vomitar. Sorte a minha deparar-me com uma vaca exausta e inteligente que me deixou enfiar a mão e o braço naquele canal viscoso e sanguinolento atar uma corda aos dois pés da cria, e de rabo no chão e pés descalços na ilharga da bicha ir puxando devagar a vitela que em honra da madrinha se começou a chamar Jonas. Não é propriamente a coisa mais bonita ter uma vaca com o meu nome, mas todas as tardes a minha filha mais nova me obrigava a parar na berma para ir oferecer de merenda malmequeres frescos, aos olhos castanhos com as pestanas mais bonitas que já vi na vida.

A 8 é verdade – gotinha, pá! Esta é para ti. Depois de mais um fim-de-semana em que o gajo não me entregava os putos, após uma espera de quatro horas pelo findar de mais uma reunião na porta do local onde o dito trabalhava, convulsionei. Foi interpelado, espremido e seguido. Posteriormente empurrado para um local recôndito. Ele e o carro - eis mais uma das vantagens de se ter um jeep. Na tentativa de sair do carro e telefonar para a irmã que cautelosamente escondia os putos na casa dela, foi encostado de vez ao muro. E sim Marie, nesse dia fumei o cigarrinho no tejadilho, enquanto rodava o telemóvel da criatura com a outra mão.
E depois, fui apanhar os putos depois de vários pontapés na porta da triste imbecil, e enche-los de mimos lá em casa.

A 9 é mentira. Tenho um humor insuportável ao acordar, não suporto barulho nem apertos, e detesto forçar as hormonas logo de manhã. Tenham dó.

Sábado, Fevereiro 21, 2009

Estás velha quando:

- Demoras mais tempo a arrancar os pelos do bigode e do queixo que de meia perna.
- Gemes durante cinco minutos com uma cãibra debaixo da omoplata esquerda, quando inicias um esboçar de levantamento de braços ao acordar.
- Os teus pés ao levantar lembram-te vagamente uns cepos enraizados até o óleo começar a fluir lentamente de volta ás articulações.
- A tinta do cabelo escorre traiçoeira pelos fios brancos ao fim de 3 semanas ao invés de te durar mês e meio.
- Começas a repetir dia sim, dia não, que as galinhas não comem raposas nem nos desenhos animados.
- Dás por ti a afastar mais do que ligeiramente escritos com letras a menos que 6
- Os teus soutiens favoritos, assentam muito melhor nas mamas da tua filha que nas tuas.
- A secura vaginal esporádica não era sequer uma hipótese remota à dez anos atrás- e não me venham falar de salivas e outras tretas que também lá hão-de chegar.
- Não tens as feições mais definidas como te fazem crer, tens é a pele a ceder perigosamente à força da gravidade.
- Semanalmente o teu último pensamento antes de dormir começa a ser, estou saturada de aturar gentalha de merda.
- Olhas para gajos com menos de trinta anos e dás contigo a pensar, tem mas é juízo que estes podiam ser teus filhos.
- Escreves estas patacoadas memorialistas e insípidas no dia de mais um ano que passou sem te lembrares bem…
tchim!...tchim!

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Nove fora três

A marie
desafiou-me para um meme que é assim como tirar a prova dos nove: digo nove coisas sobre mim e três - como não podia deixar de ser - são mentira.


Não vos falarei sobre as minhas acrobacias sexuais, mas exponho-vos nove banais afirmações.

1- Mudei de casa oito vezes, no espaço de dois anos.
2- Já estive em coma na unidade do São João no Porto.
3- Pelo-me por um pratinho de banana com laranja e bolachinhas.
4- Já dormi mais de dois anos com uma ponta e mola debaixo da almofada.
5- Já estive mais de duas horas com as entranhas de um cão nas mãos.
6- Costumo lavar os dentes de manhã sentada na sanita.
7- Já fiz um parto a uma vaca ás 15h da tarde, 40 graus à sombra e o vitelo a nascer de rabo.
8- O último gajo com que andei à mocada, esteve entalado entre um muro e o Jeep mais de um quarto de hora, enquanto eu fumava um cigarrito no tejadilho.
9- A minha hora do sexo é de manhãzinha enquanto os pardais estão meio pitosgas.

E agora, tenho que arranjar mais nove vitimas para entalar.
And the nominated are:
Jakim
Renascido
Soslayo
Divas
Charquinho
Claire
Bastet (embora ande escondida debaixo da cama)
AmeixaClaudia
Raim (pode ser com bonecos ;))

E os nomeados se só lerem isto daqui a um mês ou não chegarem a ler, não se chateiem, que eu, também não!

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

ahahahahahahahahahahah....ai que me engasgo!




You're a Tuna!

While most people consider you to be tiny, you're actually quite
large. You like to run around in large groups, but other large groups have spent
endless time and energy trying to track you down. It seems that all that has come
of this is a great deal of peril for you and collateral damage for those around
you. All this drama and emotion leaves you a bit crazy and paranoid. So much so
that you ceaselessly seem to have a song about bumblebees stuck in your
head...



Take the Animal Quiz
at the Blue Pyramid.

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

Agarre-o quem quiser

Há um qualquer chavão que se foi pirogravando ao longo do tempo que diz, para se ter a vida preenchida um homem terá que escrever um livro, ter um filho e subir a uma montanha – ou algo do género independentemente da prioridade que o próprio assuma. E sim, estais á vontade para me relembrar quem foi a celebre criatura que o proferiu, embora não faça parte da lista das minhas prioridades dado que as minhas insónias já estão a transbordar de novelas desde que me lembro.
Assim a seco não lhe acho grande lógica ou satisfação absoluta. Afinal, tem aparecido gente muito contentinha e realizada na sua vidinha, sem ter filhos ou apetrechos de escalada e onde 60% dos seus escritos se resumem a assinaturas em cheques, ou por cima de carimbos nos rodapés de folhas A4 e, não conta passarem de avião por cima das Cordilheiras com destino ao vale de Catmandu
Eu até já tive dois, filhos, claro. Já subi a várias montanhas e serras, algumas a pé e outras de mota, sem arnês, chaves estrelas bloqueadores cordas e grampos, e embora os Sherpas ainda coabitem no meu imaginário, é melhor deixar-me de idiotices que nuvens a mais tenho eu a 1,65mt, e a seguradora não me subsidia fantasias heróicas. Mas temos pena confesso.
Quanto ao livro, isso já é outra história. Já tem muitos anos e as páginas amareladas do bafio, o Livro em Branco que me ofereceram num carnaval algures. Não façam esse esgar que era mesmo assim que se chamava, capa branca com letras pretas lustrosas, restando a tarefa aos legítimos proprietários enche-lo com o que mais lhe aprouvesse. Deve ter no máximo umas 30 folhas de letra miudinha corrida a fugir ligeiramente para a esquerda – qualquer grafologista vos traçará o perfil psicológico – e continua pacatamente a amarelecer na mala de verga dentro do roupeiro. A era digital tem destas minudezas.
Ora bem, a minha falta de sei lá quê não me tem dado a mestria para escrever nem que seja um livro de bolso, embora nos últimos tempos tenha rabiscado umas balelas por aqui. Há algum tempo atrás a Maria Árvore, mandou-me um link do Portal Lisboa onde se publicitava a colheita de três poemas para compilação e consequente publicação de trinta novos poetas contemporâneos. Embora tenha pensado que a Maritree andava a fumar umas merdas estranhas, enviei os ditos e sentei-me. E é por isso que agora vos publicito para que não digam que és sempre a mesma merda e nunca dizes nada:

E a vida continua que os direitos de autor são todos para a Fundação Santo António Maria Claret, e embora sejam apenas 3 páginas e os Sherpas continuem lá longe, cada um dá o que vai conseguindo.

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

Reciclagem


Não opino. A verdade absoluta é que ando sem opiniões. E eu que era tão opiniosa.
O cérebro ultimamente colapsou e filtra-as como spams, palavras insidiosas que nos tolhem o silêncio. Eu limito-me a ouvir, quando oiço. Ás vezes faço de conta que oiço e fixo-os para lá de lá do que está por detrás da boca que se move em esgares. É estranho deixar de ouvir de repente e só ver as bochechas os olhos a ruga do nariz e da testa para cima e para baixo, e a boca a torcer-se à toa e muda. Ou será muda porque não a oiço? Tornei-me surda e ingrata?
Rabisco muito. Traços e tracinhos e sombras por debaixo e eu a deixar que falem sempre, muito e alto. Falam demasiadamente alto, a crista lateralizada e a pena do rabo projectada para o espaço carregado de iões de raiva e frustrações. Rabisco por hora naquele canto de papel que se torna gordo de tinta azul. A inchar. Eu, a abrir e a fechar gavetas emocionais ao ritmo das bocas mudas a um ritmo desconcertante.
Já volto. Tenho a lixeira cheia e vou lá fora fumar.

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

It

Mãos que se soltam vibráteis,
deslizam sonhos de névoa etérea nos montes brancos dos teus seios,
e eu olho-te no entremeio a guardar acocorado este lugar.
Urgem-me fogos-fátuos dispersos,
centelhas cavalgadas na aragem da noite,
a aguardar que a cobiça fique morna,
a latejar.
sempre a latejar.
E ao ver-te assim espuma,
eu que vim da terra à água hei-de voltar.

Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Reload

Tenho uma cena neste blog que rastreia. Não doenças, mas palavras-chaves que me levam a pensar nas doenças dos outros. Lá para baixo à long time listei algumas que ao pé destas são a mais pura crendice.
Ora vejamos:
- Remédio de Coina não é aqui é ali, que eu também a tenho mas já não a fotografo -esteticamente a coisa piorou.
- Lisaspin para que serve. Não é para gargarejos nem para lavar a a Coina, isso garanto.
- Unhas Emo. Pois lamentamos mas para esse peditório já dei, a coisa evoluiu para vermelho boi a castanho camurça.
-Chupa vagina. Cá em casa costumam-ma lamber, mas sempre pode experimentar a variante de usar uma palhinha.
- Imagens de palhinha mais cerveja. Dado que a vagina vai secando e o tempo está quente, mudaram-se decerto para uma bebida mais popularucha e fresca.
- Penetra murcho. Esta veio directamente da Thailand, e nem é gozo nem nada, mas deve ter feito muita impressão a alguém além de lhe deixar os olhos em bico como é que se consegue uma manobra desta sem o gajo sem enroscar todo na entrada.
- Vagina. Do Brasil continua a senda mitológica de, onde pára essa rapariga procurada mais de trinta vezes em quatro dias.
- Escara sangrando. A minha. Juro. Esta merda dói-me sempre e para sempre.
- Útero bicórneo. O meu é retrocelo mas tem os dois canais de Müller completamente fundidos, temos pena.
-Jardineira de granito. Eu tive umas de ganga não sei se conta. As cá de casa são de madeira de pinho. A malta é pobre.
- Vídeo. Há bastante tempo que não participo num, o que me leva a concluir contrariada que o amor que ele nutre pela natureza é bastante superior ao que resta de mim.
- Bico. Do gás? Do pássaro? Da galinha? Da vizinha que o faz ao vizinho? Eu ainda os faço, mas não filmo nem mostro. Conta?
- Ene. Se procuravam pela escola nacional de equitação, enganaram-se na baia. Ou se foram pelo projecto empreender na escola, eu já dei para esse peditório, não qualifico ninguém, mas também ninguém me qualifica a mim. Era o que mais faltava agora.
Ainda ponho a remota hipótese de procurarem uma empresa de interesse público, de grande dimensão, dotada de personalidade jurídica e de autonomia de gestão administrativa, financeira e patrimonial. Lamento, mas embora muito orgânicos temos sempre a para sempre o fisco à porta, e de autónomos de momento temos tão pouco que até dá vontade de chorar.
-Bico grande do peito em vídeo. Por amor da santa rapaz, já está na altura de te deixares dessa merda. Pede à namorada que te mostre ou come antes uma pecinha de fruta.
-Jovens driblando a3. Assim escrito. A seco e tudo junto sem remorsos. Era nestas alturas que eu pertencia a uma organização de pesquisa altamente qualificada de criaturas taradas e perversas e na calada da noite as sequestrava e empalava lentamente. Assim, também a seco e sem remorsos.

E depois de mais um ano glorioso onde a raça que costumam chamar de humanos foi capaz de confirmar aquela verdade tão merecida de que a estupidez humana não tem limites, faço-vos adeus daqui deste sofá onde me encontro, com os dois pézinhos quentinhos nas meias, debicando serenamente com o indicador direito as teclas enquanto aqueço a mão esquerda numa chávena fumegante de café. A marca? Kona from the big island of hawaii. E não é treta. Ter amigos que moram lá sem perceber um boi de português, e que nos visitam amorosamente com um recuerdo é no que dá. Ainda me rio convulsivamente só de me lembrar.
E bom ano de 2009, claro.

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008

A lata do caralho que certas gajas têm ao plagiar de forma merdosa os outros!



Então a Voz andou a ser copiada. Para não variar muito nem dei conta que sou um bocado torpe e sem tempo, mas logo hoje que o destino assim o quis vai de ler comentários por aí, e seguindo a sugestão de um link onde hipoteticamente a gente até descobre se um texto já foi ou não publicado, dou de caras com um blog de seu nome http://contradois.blogspot.com/.

Ora quis o destino brincalhão pôr-me de frente com um textozinho parcialmente deturpado, uma cópia rasca e manhosa, a ver se não chove e coiso.

Eu não sou contra a gente ir buscar em dia não imaginação fora , mas a humildade e não a humidade é uma coisa que nos fica bem e, dado que o plágio é uma coisa horrível e que desvirtualiza o cenário, devemos sempre colocar a fonte o poço ou o charco de onde fomos buscar letras e palavras para não nos cagarmos de merda até aos olhos.

Ora bem. Quero eu dizer que a coisa teria corrido bem e sem percalços se entretanto hoje não me desse para o estupor pós prandial.

Mais estranho ainda é, começar por dizer que é resposta dada a um dos que por ali passa a mandar bitaites -e eu caia aqui já ceguinha se não é verdade que me dei ao desplante de lhe dedilhar mês por mês o blog- e ter dado conta que a pobre alma tem a caixa de comentários a nulos no blogue todo. Deixei-lhe um comentário assim a modos que raivoso, e confesso malevolamente a vontade de lhe dar com uma tábua nos cornos.

( ah que interessante!!
ainda bem que gostou do que escrevi, e decidiu copiar/plagiar o que escrevi lá na tasca.
serve apenas este comentário para informar que lhe vou tratar da saúde.
e já agora, se não tem imaginação para que posta??
(ele há com cada merda ao virar da esquina...)
Veja lá se tem a decência de dizer onde vai ver beber água à fonte!)
Podia ter escrito mais mas a ira que me acossa já nem me deixa pestanejar.
Eu sei que estamos em época santa, mas não era com os sapatos que eu lhe atirava, e pelo sim pelo não ao contrário do que pensais não me lavei por baixo, mas enchi até ás bordas dois baldes de 25l cheios de merda para o quer e vier.
E são de lata, já agora, é "assim a vida".

E fica aqui escarrapachado o que a rapariga da imaginação fértil postou.

16 Dezembro 2008
>||| PENSAR COMO OS OUTROS QUEREM É QUE NÃO!...
Um daqueles que passa por aqui e de quando em vez manda uns bitaites, mandou-me agora um recado a dizer que, embora na maioria das vezes eu opte pela brutalidade nos comentários, ainda gosta de mim e de me ler. Muito obrigado!
Fiquei-me a sorrir, até porque sei quem é, e levei algum tempo a responder. Fui-me lembrando do que me têm acusado nestes últimos anos, desde lacónica a bruta vale tudo.
Não me surpreende. A sinceridade como te respondi, ás vezes é brutal e tem os seus efeitos colaterais e o meu forte nunca foi a utilização sistemática e redundante de paninhos quentes.
Os tempos tornaram-me mais prática e tanto vale estar a desinstalar um software qualquer que ande por aqui a mais enquanto e no entretanto lavo a casa de banho e o escritório, como te digo a ti ou a outros que se deixem de lamúrias e falsos artifícios moderadores que no fim a porcaria descobre-se toda e depois ninguém gosta. É assim, a vida!
Publicada por CONTRA D´OIS em 23:33

O post denunciado por plágio já foi modificado. Encontra-se agora substituído por um anuncio; o espaço de mais música no centro social da Arcor, com o Concerto de Natal da Tuna.
O comentário também foi apagado( mensagem foi removida por um administrador do blogue). A chatice é que ficam sempre vestígios a dizer da sua anterior existência. Está lá outro à espera do delete e que diz:


18 Dezembro, 2008 18:18.
Blogger jp disse...

é pena meu caro que na falta de tomates tenha apagado o comentário que lhe deixei
e lamentavelmente , das duas uma, ou é um perfeito anormal e já não sabe o que posta e de quem copia, ou é um reles aldrabão com desculpas de mau pagador
e trocar um poste por um outro de tunas é do mais ridículo que há
foi pena eu ter copiado todo o seu blogue para ter provas da palhaçada em que se meteu
tenha juizo.
18 Dezembro, 2008 20:13


O mais espantoso é o que escrevem em forma de p.s.

"Isto da net não é o que melhor conheçamos e, sem sabermos porquê, apareceu-nos aqui chuva de fora. Tem razão JP, que não conhecemos, mas confessadamente nem nós tínhamos dado por aquilo que nos aponta. Mas também precisava de exagerar, só fomos apanhados numa curva em condução que não fizemos mas nos chegou do exterior. O que aqui quisemos por foi o que acima está sobre a Tuna."
Alerta ao publico. Os postes sofrem de uma espécie viral a identificar que se transmite adoc de blog em blog. A inspecção sanitária já tomou nota da ocorrência.
Está comprovado. Os Aliens existem, e eu acredito no Pai Natal!

Agora o meu p.s.
-Ide apanhar no cu!

Quarta-feira, Novembro 19, 2008

4

Ando nisto há quatro anos e não me lembrei nem mo lembraram a ausência tem destas coisas, e as coisas são resultado de conversas e balelas e tu não ouviste dizer?
Quero e preciso de conversas daquelas em que o tempo passava morno por nós e estávamos para ali refastelados por onde calhava a retalhar coisas que nos moíam e corroíam e faziam bater depressa os sentidos, emoções faladas em olhos brilhantes contentes com lágrimas, conversas sussurradas e bradadas e soslaios contemplativos no nada e no céu e nas ervas e nas formigas e olha aquela nuvem parece mesmo um koala a mastigar!
A distancia. A morte que tudo nos leva, a cave a chamar por mim em tempo frio e as minhas mãos bocados de tintas coladas nas telas em silêncio. Sempre em silêncio.
E a gente ás vezes dá em atrofiar um bocadinho...
Tenho saudades de conversas idiotas e de me refastelar por aí.

adenda
a Maritree lembrou-se!! e deixou-me 4 palhaços no WC, e eu ando tão cheia de ramelas que os devo ter utilizado para as lavar e nem percebi...
Ah! Gandamarie são uns toalheiros fabulásticos!!

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

Resposta ao sms

Recebi um sms (sim tu sabes de quem falo) a dizer que, embora na maioria das vezes opte pela brutalidade nos comentários, ainda gostam de mim.
Deixei-me sorrir e levei algum tempo a responder. Fui-me lembrando do que me têm acusado nestes últimos anos, desde lacónica a bruta vale tudo. Não me surpreende. A sinceridade como te respondi ás vezes é brutal e tem os seus efeitos colaterais e o meu forte nunca foi a utilização sistemática e redundante de paninhos quentes. Os tempos tornaram-me mais prática e tanto vale estar a desinstalar um software qualquer que ande por aqui a mais enquanto e no entretanto lavo a casa de banho e o escritório, como te digo a ti ou a outros que se deixem de lamúrias e falsos artifícios moderadores que no fim a merda descobre-se toda e depois ninguém gosta. Tenho umas saídas melhores, confesso, e há alturas em que imbuída do espírito pacifista do ano em que nasci consigo fazer um desenho a cores e tudo. Mas não me peçam milagres que eu ando muito chateada com o governo e tal e o muro das ditas fica em Jerusalém.
Mas a ti te digo que ninguém nos está a ouvir, que se esperas que vá dar-te pancadinhas nas costas com ar compungido e aceite “crescimentos” mal resolvidos, tira o cavalinho da chuva que o gajo é de madeira de pinho e incha e fica com bolores e líquenes e acaba por se desmanchar um dia destes.
Quando precisares que te dê a mão para te puxar do poço onde por azar ou cegueira temporária caíste ou te empurraram, estarei lá com uma corda bem grossa para que não me escorregues do pulso. Mas depois, não esperes que te lamente e que brade quão coitadinha estarás. O mais provável é levares uma chapada nas ventas. E dar-te-ei colo a seguir se para aí estiver virada.
E eu também te gosto sim embora enquanto o diga não dê saltinhos.

Quarta-feira, Outubro 01, 2008

Num dos quartos do andar de cima o mais velho e a namorada atiram gargalhadas vibrantes e claras aos pardais que chilreiam na varanda. Ao lado, a mais nova de aparelhagem ligada o som do I’m Yours deixa-se embalar pelo dedilhar tímido da guitarra oferecida pelo Natal.

A adolescência tem um som acre e doce.


A tarde aqui na sala, enrolou-se em abraços e colos apertados beijos e mãos dadas, cafés e cigarradas.
E o dia, deixou-se escorregar de braços abertos alaranjados para detrás do mar.

Segunda-feira, Setembro 29, 2008

Free Download e idiotices

A nossa curta existência é pródiga em pequenas surpresas. O mundo torna-se assim também ele pequenino e cabe fechado na palma da mão que nos mostra o destino traçado para quem acredita.

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

Inconfidências I



- Era eu rechonchuda e sadia e já passava o tempo qual mágico ilusionista a arrancar as fraldas de pano para fora das cuecas de plástico. Benzia-se minha mãe como é que eu com uns dedos tão pouco destros conseguia desatarraxar o bendito do alfinete tão bem escondido que estava na dobra, e não ficar como um Cristo na cruz a despejar sangue por entre as partes pudendas. -Ele há coisas do diabo!...
Quando passei à fase das cuecas rendadas e com elásticos qualquer uma me estorvava as virilhas e, era apanhada vezes demais para o meu gosto ora de rabo à vela, ora encavalitada no banco da cozinha a engancha-las na maçaneta da porta puxando-as quase até cair tornando-lhe a forma mais larga. Optaram por me vestir dois números acima que caiam ao de leve na anca mas que pendiam lassas no traseiro (que continua a ser de coelho, pequeno e acachapado) triste bandeira sem vento, que deu como resultado vários fotografias de cuecas ao léu e birras tremendas pois estávamos na pujança da moda da mini-saia. Dois coelhos de uma cajadada. Andava com o pito arejado mas com metade do tecido de fora.
Ora bem, desde aí (continuo sem suportar cuecas apertadas) que uso as gajas a dar para o largo e quanto mais estiverem os elásticos frouxos mais eu gramo, o que significa que, de vez em quando fico com elas dentro das calças em qualquer lado numa atitude pouco digna, como da última vez que tive que fazer um RX à rótula e não me despi na cabine que a técnica é minha conhecida e assim era mais depressa.
Uma vergonha portanto.


imagem daqui

Quinta-feira, Agosto 28, 2008

Conversas nocturnas

imagem daqui

- Estás por aí?

…………………………………………………………………………………………………..

- Olá rapariga estava na cozinha a por uma roupa de molho num produto que limpa os tingidos sem querer…

- UMA VERDADEIRA FADA DO LAR

- Antes isso que uma foda de lar, embora tenha sido uma foda ficar com roupa tingida.

- Ossos do oficio

- E tu ainda a pé a esta hora, e no computer??

- Tou muita maluca

- Conta…

- A verdade é que estou a fazer o horário para Estremoz

- Ah,..e eu a pensar que tavas melhorzinha...

- Nesta idade já avançada, as melhoras são poucas.

- A idade está na nossa cabeça. Eu ainda sou uma adolescente. Depois quando torço o pé porque me atiro do banco da cozinha e fico 3 dias a marchar com canadianas é que reparo, que o corpo cansado ás vezes já me prega partidas. Mas, a cabeça minha querida, deve ser a ultima coisa a envelhecer

- Essa parte da cabeça foi um momento bonito, mas os três dias de canadianas também têm a sua piada, estavas a fazer limpezas?

- Não. Andava a testar os cortinados lavados como lianas…e depois andar com canadianas é sexy.

- Eu bem sabia que um dia iria arranjar uma boa razão para ser tão desarrumada e agora descobri -FAZ MAL Á SAÚDE

- Não amor estás enganada. Limpar por fora, limpa a alma por dentro.

- Com essa é que me lixaste. Agora continuo desarrumada mas com a consciência pesada.

- Eh pá não ligues que sou assim, esquisita, digo coisas esquisitas e, já devias saber que quanto mais desarrumada estou por dentro mais arrumada me torno por fora. Há quem tome calmantes. Eu arrumo por ordem de alturas tamanhos e grandezas.

- Com essa teoria eu devo ser altamente equilibrada no interior.....

- Ou não. A teoria só se torna objectiva quando o interior fica arrumado por fora como por dentro. Continuar desarrumada por fora jamais te arruma por dentro. Um circulo mágico e lados lisos ou diferentes de arrumação.

- Há coisas para as quais não há salvação, mas estou tranquila e com um sorriso nos lábios. I do my best.

- Mas ninguém te quer mudar cherie.

- Eu sei.

- Todos diferentes e todos iguais, capisce? E, a salvação é relativa, já ardi na fogueira há muitos anos e só mudei a pele.

- Eu cá desses tempos não me lembro mas tenho pena. Ando com o espírito a vaguear enquanto durmo mais do nunca

- E eu tenho pena de não te lembrares, ia ser mais fácil não repetir erros, como este que acabaste de dizer. Sonhar na lua a magicar coisas improváveis enquanto a vida continua crua cá em baixo.

- Sonhar faz parte de mim e, por vezes é um refugio confesso, mas também se pode tornar tranquilizador,”tá-se bem”...

-Eu sei filha que faço parte do mar, mas um gajo AFOGAR-SE DIAS A FIO NAO TÁ COM NADA! TENS QUE LEVAR UMAS MARRETADAS NA CABEÇA DE VEZ EM QUANDO!

- Eu não disse que dormia mais do que nunca, faltou uma virgula, queria dizer que mais do que nunca, o espírito viaja enquanto durmo.

- Sonhar faz parte do acto de dormir, e acordar depois também. Quando te olho no geral, tu em tudo, vejo caos, um esgravatar de anos.

Querer estar em todo o lugar sem te sentares num banco ao sol somente á espera que o sol te aqueça um bocadinho, entendes-me?

- ENTENDO, MAS NÃO ME SINTO TÃO " INTRANQUILA" como dizes.

- Eu não disse que eras intranquila., disse que quando te olho vejo caos, demasiadas coisas ao mesmo tempo, demasiadas solicitações. Depois quando te dedicas ferozmente a cada uma delas fica um travo de boca, qualquer coisa por acabar. E o que podia ser grande fica diluído em tantas coisas que ficaram pequenas porque muitas – parece a conversa da bruxa má irlandesa do norte. Não me ligues que ando ás voltas com a lua e com poucas coisas para me entreter.

-NÃO TE PREOCUPES.SE FICAR ASSUSTADA BATO OS CALCANHARES DOS MEUS SAPATOS VERMELHOS E ACORDO EM CASA.

- Essa era a gaja do leão, do homem de lata e do cão histérico, eu pertenço a outra linhagem. É pena ter hoje os poderes temporariamente desactivados e, não te conseguir mandar numa concha o cheiro fresco da noite que me embala agora. Vai descansar pázinha.

-Manda-me amanhã por correio.

-Combinado. Toma beijos.

- Beijos.

Domingo, Julho 27, 2008

Sesta dos Compadres


Está modorra e, a gente espera deitados pelo amarelar das searas.
Há hábitos que nunca se perdem.
Divirtam-se enquanto puderem.

Sábado, Julho 05, 2008

Mural quase perfeito


Há um ditado qualquer que cita algo do tipo, quem não tem que fazer, faz colheres!
Ora eu, depois da limpeza da casa finda e da roupa de quatro semanas passada, e depois de andar dois dias a remoer no que me disseram após um ataque pessoal semi-histérico com murros e tudo na mesa ao qual virei costas, decidi embelezar a parede da retrete de serviço cá de casa pintando-lhe uma espécie de mural.

Já dizia o meu avo que o maior alivio era um gajo cagar atrás das canas...

Sábado, Junho 21, 2008

Os dias











A Açucena amarela teve gémeos.


A Alice está a adivinhar chuva.








A Passiflora pinnatistipula já tem cápsulas de segredos floridos.






E eu invento fins de semana grandes e silenciosos.

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Até ficava catita...

Art Museum
Museum by dumpr.net

Coisas por dizer


Quando nos damos a conhecer a alguém falamos de tudo e mais uns tostões , noventa por cento do tempo de emoções. Somos feitos de sentires que ninguém negue e é através da verbalização e do movimento corporal que nos despimos aos poucos, complicando ou descomplicando sinais que o outro atento tenta descodificar.
Entramos na fase, a novidade.

Depois, achamos de repente porque sim que adivinhamos tudo, que o outro já viu tudo, começando a coisa a baralhar-se a um ritmo frenético. Naquele dia não nos demos ao trabalho de explicar que os sinais da bandeira mudaram de cor. Sem bóia e o mar bravo acenamos ou afundamos, normalmente num mutismo que brama mais alto que palavras gritadas.

Começamos por nos justificar, lá para o fim encolhemos os ombros selando a concha arrastando devagar o tapete cheio de partículas perdidas em letras sem rumo que não se encontram no labirinto das paredes erguidas dia após dia.
Entra agora a segunda etapa, o poistábem.

Deixaremos então recados colados e setas nas veredas ao fim da tarde, mas a noite sobressalta-nos e o foco ficou no bolso da gabardina que está ao cimo das escadas pendurada atrás da porta.
É o inicio da terceira fase ou, da cegueira ao entardecer...



A foto é de Bobo Olsson


Quinta-feira, Maio 29, 2008

O alemão e eu

Acabo de ver um pirilampo a pirilampar no jardim!
Na ânsia de o ver mais de perto tropecei nos pés e perdi-o de vista.

Terça-feira, Maio 20, 2008

Chefes burriés

Eu gosto do que faço. É um facto, ou não andava vinte e um ano a aturar palhaçadas burocráticas que me bulem com os nervos quase diariamente. – Eh pá também não ganhavas… – Erro! Ganhava provavelmente mais e aumentava anos de vida, outro facto indiscutível. Há quem garanta que sofro de certezinha de uma pontinha de masoquismo – antes disso que diabetes – e noutra encarnação fiz mal a muita gente, ou não me tinham enviado uma anã déspota com menos anos de curso e mais nova chefiar o serviço. E nem sequer é dor de corno, que até já chefiei serviços mais que uma vez e detesto francamente, mas a malta era insistente e um dia ao acaso ofereceram-me de bandeja uma porcaria de uma especialidade que recusei à partida que para maluca já tenho a minha dose diária, tás a ver depois daí é directo e vais chefiar um serviço…

-Fodasse pá! eu não quero chefiar porra de serviço nenhum, é assim tão difícil de perceber?!

A coisa é muito mais simples. Mandando sou uma filha da puta perfeccionista mas, também não nasci para ser mandada. Coordenada ainda papo, mas mal mandada a coisa cheira-me logo a fezes moles causando-me brotoeja e passo de bestial a besta num segundo quando a bota não bate com a perdigota, outra expressão muito famosa que nem sei bem de onde vem a coisa com a coisa mas que fica aqui mesmo a matar.

Vem tudo isto a propósito de uma discussão de merda que durou menos que três minutos, que eu já tinha jurado não dar abébias a anãs com TPM, mas a malta até anda uma semana a remoer enquanto tem palha, e a coisa falha e só tem a anã a cuspir-lhe para os pelos da narina e das duas quatro, ou lhe dás com o rabo ou fazes como quando tens burriés que te incomodam, não tens lenço vai já aqui na parede, ou tendes tempo até fazes uma bolinha menos pegajosa e atiras janela fora. Eu hoje não tinha tempo e esborrachei-lhe o burrié na lapela. Foi injusto que a gaja é pequenina e nem se conseguiu defender. Temos pena.

– Vou registar a ocorrência!

- Regista! E podes repetir três vezes a negrito com sublinhado e caneta fluorescente por cima! E debita-me a seguir a caixinha dos lenços.

(Pró caralho!...)

p.s.

alguém tem uma motoserra que me empreste?

Quinta-feira, Abril 17, 2008

A chamada

A noite correu-lhe mal. Deu voltas e mais voltas beliscões na almofada, suspirou, tornou a suspirar, a perna esticada a perna enrolada a perna com cãibra, a testa enrugada e mais uma punhada na almofada. Adormeceu por exaustão e acordou quatro horas depois ao som do telemóvel que frenético andava ás voltas sobre si ali ao lado.

-O pai morreu!

-Ah, qual pai?

- O nosso, pá! -E a voz entaramelada do choro.

-Quando?

-Hoje ás 9h, vou buscá-lo a Lisboa.

-Ah…está bem, quando chegares avisa. Queres que vá ter contigo?

- Não, eu aguento-me.

-Beijinho e vai com calma.

-Sim, vou.

No espelho à procura de uma emoção só vislumbrava remelas e a tez baça. Lavou os dentes ajeitou os cabelos e urinou. Cinco minutos mais tarde enquanto mexia o café e olhava lá para fora pensava que, há rios que quando secam é para sempre.

O luto já tinha mais de vinte anos e estava um dia lindo lá fora outra vez.

Sábado, Março 29, 2008

Perfil



O teu perfil revela-nos que és:

Tímido, competitivo, suave, humilde e solitário.

Por isso fazes um bom par com o génio Brynn.

Brynn para que saibam é um tigre do sexo masculino, porque os pares de humanos e génios normalmente são mistos, diz o link do Golden Compass, aquele filme que o meu eu criança devora sonhadoramente enquanto mantém as pernas cruzadas sobre a cadeira do cinema e, a seguir se esquece de desenrolar e faz sempre um bocado de figura estúpida quando quase cai ora para a peruca do gajo da frente, ora para a alcatifa pegajosa salpicada de pipocas no mal iluminado corredor central, e não me venham com a treta de que até já acenderam as luzes que eu sou um bocadinho astigmática e a água que tenho nos olhos e não me deixa ver bem é reflexo de ter estado aquele tempo todo sem pestanejar de boca aberta.

Tímida sou, vou comprar tabaco em situação de rasquinha na tasca da vila porque, o vicio é mãe de todas as grandezas e olho apenas muito fita pr’o senhor do lado de lá do balcão e tenho sempre que repetir duas vezes que é um Marlboro Ligths porque apanho sempre criaturas com os ouvidos cheios de cera que nunca me percebem à primeira embora há quem diga por pura maldade que eu falo para dentro. Calúnias!

Competitiva, tenho dias. Nem sempre me calha bem que me ultrapassem na fila do refeitório, mas estou-me bem nas tintas que haja quem trabalhe mais do que eu durante o turno que eu já levo muitos anos a virar frangos. Já não sou gaja de jogar em grupos, ou para grupos, porque perder nem a berlindes.

Lá suave sou, especialmente quando até já me saltou o tampo e entrei na fase do ai ele é isso? A palavra mais adequada é gentil, porque é uma cena de berço, do signo com que a alvorada me brindou ou da esmerada educação recebida, embore eu concorde que é fruto da vida que me foi limando as arestas até chegar ao ponto da minha filha me dizer que tenho a barriga macia.

Sou tão humilde que, nem quando as gajas do meu curso tinham melhor nota do que eu no trabalho de grupo, embora fosse eu a despachar aquela treta toda sentada na sanita da casa de banho das raparigas, eu refilava. Saia-me um esgar hora de desgosto ora de desprezo, não ouvia metade das aulas e passava o tempo dos intervalos sentada no chão no lado de trás do edifício a ver passar as formigas e a despachar cigarros. Ainda hoje passo por delinquente lá na escola, mas também não tinham nada de me proibir de calçar botas caneleiras, e na semana seguinte por mero acaso ter aparecido por lá com elas calçadas e cardadas.

Hoje, ainda acho que poderia fazer melhor, que há quem seja e faça, e que o egocentrismo é um animal muito feio que se aloja no umbigo em forma de cobra preta.

Solitária sou. Porque sim, porque me sinto bem no meio do nada a ver passar os navios, os percevejos e os pássaros. Porque gente a mais me descontrola, porque não lhe consigo dar a atenção que me merecem, porque gosto que me olhem directamente nos olhos, porque gosto de os observar dentro do espaço que ocupam, e porque o silencio é meu companheiro e conselheiro nas boas e nas más horas e por muito que esperneiem de indignação, continuo com a convicção estapafúrdia que há coisas que temos e devemos fazer a sós com o ego.

Quanto ao Brynn o animal tem um pelo riscado lindo, mas já fiz a minha aposta que haveremos de andar muitas vezes de costas voltadas a olhar para as respectivas unhas. Vou-lhe no entanto permitir uma oportunidade rara, que é a de me afagar o pelo, na certeza simbiótica e animalesca de que é um gesto desinteresseiro.

Segunda-feira, Março 24, 2008

Parabéns Hipatialudovina


Tem o cabelo cor do fogo que arde nas lareiras das casas do norte, e sai vestida com uma capa de lobo empertigando-se nos saltos.

Tem os olhos da cor das searas na Primavera, e torna-se branda quando o calor Mourisco a aquece.

E é pequena outra vez quando vermelha das papoilas onde se rebola se derrete melosa ao som das cigarras.

Parabéns HipatiaLudovina e que venham mais tantos again!

Sexta-feira, Março 21, 2008

Vens tarde Prima


Crepúsculo findo, brumas sonolentas sinuosas e já a rainha cega penteia longas e ralas tranças brancas, enquanto se embala imperceptivelmente ao som dos teares que queixosos lamuriam os restos frios da escuridão. As vozes roucas dos gansos estremunham as cotovias piscas de olhar orvalhado e, o cão cansado de pernoitar pelos arganazes procura o sol que tímido se espraia acariciando a calçada.

No som do eclodir das sementes deixo-me dormente ficar só mais um bocadinho sorrindo aprazivelmente ao choro fraco da Primavera.

Quinta-feira, Março 13, 2008

Maria-fia

Tábido terrestre, vicio culminado em loucura que se mete pela pele tamanco da existência na soberba de olhar aquém,

para lá,

de cá,

que isto é como quem diz vivaz planta flor de botão que se deu num dia que ainda não aconteceu,

além,

fixa agora o que se desvanece vão de água em vau quente,

paul da saudade que se omite na imaturidade do substrato que se desconhece puro.

Apenas e só faladura, petulância de vade-mécum.

E não havendo medo, não é coragem.

Quarta-feira, Março 12, 2008

Despassaramentos


Ao fim de cinco meses a morar-mos na casa nova, o meu filho mais velho cerca das 23,30h pergunta-me com ar alucinado:
- Mãe, onde é que se acende a luz de cima da sala?
(duh!...)

Quinta-feira, Março 06, 2008



Merdicacas

Alcova, onde o cheiro se aninha

Chilreio, que oiço lá fora e me atira contra as nuvens de algodão

Ciciado, o sopro quente das palavras que me gritas ao ouvido

Porra, o redondo da língua enervada

Sargaço, o limo que me arrepia e cheira a sal

Zibelina, porque me lembra Marta que me lembra farta, que silva ao ser dita e eu gosto

Neblina, e o que eu gosto de me perder nela

Pranto, alivia, desentope e faz dormir

Avesso, o que está escondido com o rabo de fora

Mentecapto, o gozo de o dizer e o outro não perceber

Patarata, um misto de pata e rata que caiu na ratoeira

Óbvio, porque sim

Pélvis, pelo ondular quente que me freme com os neurónios

Maciez, da carne, do veludo, do pelo do gato, da faia

Veneziana, porque os riscos sombreados que lança no chão de madeira me apaziguam, e azuis se faz favor.




E Hipatialudovina, se julgas que te refugias na alcova, depois de encerradas as venezianas a ouvir o ciciado chlirrear do loiro, enquanto a neblina se encosta nos sargaços e na maciez da tua pele zibelina, e os mentecaptos ficam por aqui a ver-te dar à pélvis só porque é obvio, desengana-te, porra!

Quando te apanhar meio patarata, vais ver como o pranto te alivia…

Plim!

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

quando finalmente me aperceber, vai-me parecer mal...

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

A carta

...já me deram muitas desculpas, estar sobre uma tempestade de neve é a primeira. Faz lembrar aqueles romances de pacotilha que eu lia quando era adolescente, ou na actualidade, os filmes americanos que neste caso assentam que nem uma luva.

O meu estilo, como lhe chamas, é negro. Um misto de rebelião com saudosismo barato, em que os heróis nunca deixam de ser heróis mesmo que o reumático já lhe encha os ossos inquietos.

E rapaz, serás sempre rapaz, embora tenhas menos cinco ou seis anos que eu, e sejas mestrado em sei lá o quê, pois usarás sempre óculos grossos a taparem-te as pestanas grossas e farfalhudas, e sentar-te-ei sempre no meu colo enquanto digo à tua irmã P. que és o meu namorado enquanto te encho a bochecha corada de beijos. Estás a topar a cena?

Skype só para a máquina, embora em momentos de euforia publicitária opte pelo Tide ou pelo Ariel e me arrependa logo a seguir e ande uma semana a repetir que não irei seguir conselhos marados de gajas domésticas e giras que até lavam roupa e tudo em casa.
Enfim…

Pensarás, a gaja está completamente xoné, está para aqui a debitar um discurso sem nexo, mas au contraire, estou tal como era há trinta anos atrás quando não me calava enquanto jogava ao Risco contigo, e tu perdias e ficavas completamente lixado e juravas nunca mais jogar comigo a coisa nenhuma, e eu desenhava-te mais um Cheguevara para colares na parede e continuávamos amigos como dantes. Lembraste? Ser amigo de uma adolescente era lixado.

Vais ver que não nos vais reconhecer, dizes tu, rapaz de certezas irrefutáveis, lógicas bizarras e teimosas.
A tua miúda não que só lhe vi um retrato em bebé. Tu, estás igualzinho filho, mais careca, com rugas que não te conheço, os mesmos olhos tristes por detrás das lentes de contacto, e uma barba por fazer que via diariamente na cara do teu pai. O cachecol ainda o enrolas como dantes. Via-te todos os dias Johnny, reconheço-te até no fim do mundo.

Toma beijos e aperta-me esse sobretudo que faz frio por aí.

Desta que te estima.

J.P.

Domingo, Janeiro 27, 2008


A vida também precisa que lhe escrevas, é a modos que egocêntrica em dias alternados, despe e veste a farpela domingueira como quem se mostra à gente na esquina, a usar farrapitos de conversas enquanto desconstrói corpos que se trocam pelo dia conforme lhe dá na veneta. É um virote, não se condói. Parece vento daquele que nos entra pelo cabelo.

É chata a vida.

Mas a porra da inveja da ventania. Magicamos por entre as gretas escaqueirando o verniz. Por onde te escapas quando fechamos as mãos? Por entre os dedos, então não sabes que a vida é polida por areias ancestrais? Podes é aproveitar na volta da esquina. Descontrai-te que ela agora não está a olhar. Vai lá calçar as pantufas devagarinho, escreve-lhe cartas de amor e ódio, como o senhor da pala de cabedal - ou mero pano de linho tingido – como cartas de alforria de alguidar. Tal qual a carne.

E a carne é fraca.

Segunda-feira, Janeiro 14, 2008

reencontros

Voltaram a perguntar-me porque me deixei lá ficar durante tanto tempo.

-Por inércia, por desleixo, por medos não interiorizados, por baixa auto-estima essencialmente.

-Tu!? Mas desde quando é que deixaste de ter auto-estima?!

- Quando deixei de me olhar ao espelho.

- Mas isso é uma parvoíce. Tem que haver outra razão. Tu és igual ao que sempre foste, pouco ou nada mudaste, ou melhor, até melhoraste. Por amor da Santa, isso é uma insensatez! O gajo era, e é, de certeza um animal, pátati, patátá…

Desliguei o sensor,e bloqueei os centros receptores. Restava-me olhá-la por detrás dos óculos escuros, enquanto lhe via brilhar a aliança.

Zurzir nos pobres homens analfabrutos a quem a mãe natureza não dotou de sensibilidade mediúnica para prever o nosso próximo desequilíbrio hormonal, é considerado o top das prioridades socialmente correctas. Nós nunca temos culpas. Eles acumulam todas as inépcias e handicapes mundiais.

Eu sei que faço parte dos gráficos.

Não gostei, e não gosto.

Mas não me senti especialmente humilhada. Ele era maior, com o dobro da superfície muscular e, com metade dos neurónios disfuncionais. Só conseguia sentir raiva por não lhe poder retribuir da mesma maneira violenta, embora mais tarde se tenha transformado de calmeirão em vítima, quando interpôs recurso no processo de acusação de violência e maus-tratos. Devia na primeira dose tê-lo denunciado. Este foi o meu primeiro erro, apenas e só. Permiti. Agora é chorar sobre o leite derramado.

Mas este género, nem sequer é o grau de pureza certa.

Pior é, quando a inteligência modificada faz uso de formas veladas e reboladas, de manipulações embrulhadas em lacinhos cor de mel, em que ás vezes é doce e noutras fel fenilanizado, capaz de nos fazer ingerir duas taças de seguida e nem perceber de onde nos vem tanta azia. Lambuzam-nos o ego carente, e instalam-se em jeito de parasita numa velosidade angulada.

E sorvem sempre.

-Estavas a dizer o quê mesmo?

Sábado, Janeiro 12, 2008

embalar o menino


A Maria pariu enquanto fumava um cigarro. A clínica privada assim o permite. Tem um dístico laranja na entrada onde se lê que ali é, permitido fumar. Ainda bem, andava por aí à nora sem saber onde encostar o maço e salvaguardar o olho, que andam muitos dedos apontados disfarçados de pides com roupagem nova.

A gente lá no serviço criou à socapa uma salinha de chuto. Resta-nos ir pedir subsidio pr'a gripe, pr’a escoliose, e pr’o aparelhinho da casa Sonotone . A Sibéria ao pé daquilo é quente, o pessoal mais alto ainda consegue encostar as mamas no parapeito e espetar o braço dormente de fora e, as máquinas do vapor guincham alucinadamente com decibéis proibitivos. Se não for desta que nos dão o subsidio de risco, não sei quando será.

Esta noite, até já sonhei que a Tabaqueira tinha enviado uma clapeleta de metal em forma de agradecimento ao que resta da minha família, por bónus de sobrevida comparativamente ao gajos subsidiados.

Tá quentinho na casa da Maria e tem cinzeiros. Ia-me perdendo na floresta antes de lá chegar, mas, ainda bem que o lobo mau tem um pacto de sangue comigo.


Terça-feira, Janeiro 01, 2008

2008

Sábado, Dezembro 22, 2007


Comei e bebei oh! criaturas bizarras, como se o mundo acabasse de manhã, e não vomiteis que a comida foi paga com o vosso cartão de crédito.

Abraçai-vos com o meio metro de distância recomendado, e respirai profundamente na janela da sacada depois.

Podeis derramar umas lágrimas comedidamente, e assoai-vos ruidosamente ao canto da cozinha.

Perdoai os outros pecadores como eles decerto vos perdoarão.

Guardai zelosamente os laços, fitinhas e restante papel de embrulho que os aniversários aproximam-se a passos largos .

O esgar em forma de sorriso, polvilhado de açúcar e canela será permitido e recomendado.

Alegrai-vos com a antecipação do Sangue derramado.

E de uma vez por todas tenham a coragem de dizer à vossa tia para enfiar as putas das peúgas na ampola rectal.

Que o Senhor vos acompanhe que eu não estou com disposição.

Ámen.

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Viver no campo


Já me tinha esquecido de como viver no campo é fixe. Se não ligarmos pevide ás moscas e ás aranhas que todas as tardes tecem carpideiras as teias nos cantos inacessíveis, e a uns gajos arruivados com cem patas e bigodes farfalhudos que gostam de escadas, a coisa é bucólica. O preço das portas mosquiteiras do AKI é que nem por isso. Os olhos arredondam-se de espanto enquanto se solta um palavrão primo da nova operadora de telemóveis, que a coisa é francesa daí ser cara, só tem essa explicação, que viver no champ é coisa vip. Vim eu das herdades agora armada aos cucos...Pois que venham as moscas, melgas e mosquitos, sai um Raid do armário, tu usa-me o mata-moscas pá, então tu não ouves os galos marados da vizinha que cantam ao desafio lá para as duas da manhã um mais esganiçado que o outro -a galinha Serafina de ouvidinhos sensíveis pica-lhe as hemorróidas, só pode- é do buraco, os bichos lá sabem que anda tudo virado do avesso. E os patos? Bem, essa freguesia já faz parte de um estado mais avançado de loucura só partys pela noite dentro e de manhã tornam-se mudos, o burro das gengivas furiosas só zurra pr'o cavalo, tu queres lá ver estes gajos a noite inteira num chinfrim, e agora querem é dormir, pois vai lá e diz que mandei eu.

Viver no campo é fixe! É, é...

Domingo, Dezembro 02, 2007

Chá noite tranquila


Absorta e sentada ás três pancadas sigo o sol que se põe cedo. Oh pá, que raio a invenção da menos hora, já não bastava o frio que se infiltra sorrateiro no colarinho, agora menos uma hora. Não é justo e ponto.

Mais uma sorvedela no capuccino.

Mais uma no cigarro.

Lá se foi por detrás da serra o sol a deixar rastos rosados compadecidos, estás a ver, quem é amigo, quem é?

Ora deixa cá ver se consigo instalar o kanguru (assobio) parece que sim.

- Olha, olha, os gajos do clã despediram-me! Gaiatos de merda antipáticos, já não se pode estar a morar no cu de Judas, sem acesso a netes, sem correios electrónicos, blogues, novidades no Ikea e tal, tenho os vampiros dormentes no cemitério e tudo, também cago bem no clã eu até nem papo grupos, olhe desculpe mas pode-me dar uma transversal e uma perpendicular da sua rua para podermos confirmar a morada?

- Quer um mapa do Google, ou prefere um desenho à mão?

- O serviço que requereu é uma mudança de morada, certo?

-Errado… anulei esse serviço há sete anos atrás. É para activar apenas o que já está montado no condomínio.

- Sô Dona Joana, deixe-me então confirmar o número do contrato. Pois Sô Dona Joana então é assim. Ajudava imenso saber o nome da rua perpendicular e/ou uma paralela da sua.

Suspiro…

- Não me acabou de confirmar que por um acaso feliz, confesso, até já foi activado o serviço de um vizinho da frente?

-É verdade Sô Dona Joana.

-Então qual é a dúvida?

-A paralela e a perpendicular ajudavam bastante.

- Foda-se, isto não me está a acontecer.

Piiii…piiii…piiii…

-Sim?

-Sô Dona Joana, a chamada deve ter caído.

- A chamada não caiu. Desliguei simplesmente. Lamento mas atingi o meu limite máximo de estupidez diária. Adeus.

Cai o Kanguru, de momento o seu aparelho não está a ser reconhecido, volta Batman que estás perdoado, já não sei bem se o chá noite tranquila não me anda a provocar efeitos adversos, Maria esqueci-me dos teus anos e não me perdoo, esqueci-me dos meus três anos de tasca e pronto comi uma almôndega de bacalhau para me recuperar e um copito de três, Ludovina comecei a fazer uns gargarejos com água salina a ver se a coisa vai ao lugar, e não há vampiro ou lobisomem que eu não pape ao petit déjeuner desde tenra idade, Claire como é que eu consigo tirar os restos de tinta debaixo da unhas sem ter que as limar até ao sabugo?, Soslayo os gajos da TV cabo codificaram-me a RTP Madeira, ai Mar e mar há ir e voltar e eu tenho fé até nos senhores da Clix, a ver, Shark pá, os gajos merecem lambadas e pontapés até mais não que só se lembram das coisas depois da casa arrombada, e eu começo a ler mal as letras pequeninas, e aloc meu filho, já valeu a pena o silêncio para te pôr os olhos nas letras.

Haja fé.

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

WC

Depois das férias mesmo sem querer fazemos balanços. Pomos tudo na balança e soltamos depressa a presilha travão. E mareamos por ali um bocado na vã esperança de que até ao fim do ano tudo se torna levezinho e sem espinhas.

Puro engano.

Ele é as contas, os atrasos diários e fatigantes, as atitudes míseras dos mais queridos descobertas meses depois, os gajos dos seguros que nos atrasam desprezivelmente a mudança de rotina com merdacas imensuráveis e completamente desprovidas de qualquer lógica, os estupores daninhos que fingem trabalhar mais do que nós apenas porque a malta até foi de férias e abjectos mastigam frases tipo, eu já nem me lembro das minhas, nem sei o que isso é, mesmo que tenha apenas decorrido apenas um mês que estiveram esticados na areia biliosa de um Algarve algures. -E as tuas foram boas? Já acabaram não é?...

- Foram óptimas. Acabaram, mas, eu até já tinha saudades de vir para aqui abandalhar a coisa vejam lá pr’o que me deu. Vocês sabem lá as saudades que eu tinha disto, pá!

- Tu só podes estar a brincar!?

- Não pá! Este é o meu sítio favorito, o local indicado para a minha bipolaridade, a minha metade da vida, o meu pace-maker, a casca da minha laranja. Ele há coisas fantásticas não há?!

- Vai cagar Joana!

- Tá bem, eu vou :o)

Domingo, Agosto 26, 2007

Azul


Detesto esta segunda pele em neoprene que me tolhe os movimentos em terra, a mescla de cheiros que emite a quente quando a arfar sufocada me enfio neste saco meio embrionário. Os dez mergulhos resultaram num tique chato que me faz não vestir decotes justos ao pescoço sem que não esteja inconscientemente a alargar o padrão.

Este é o lado negro da cena.

O lado de lá cenário de um azul imenso do outro take, é para onde me deito de pés ou de costas, a inspirar ar engarrafado ou a morder um tubo fálico que aspira o ar à superfície.

Questão de tempos.

Como o tempo que demoro a deixar que o mar me funda contra o vazio que me acena.

Escorrego devagar até uma das bases e borbulho já calma no principio silencioso. E é ali, lá, aqui ou acolá, que me deixo envolver já neutra no líquido amniótico, enquanto a mescla profusa de seres com barbatanas rodopia e me cumprimenta em estranhas danças de salão.

Quarta-feira, Agosto 15, 2007

Humm...onde é que o gajo se meteu?!


Ando ocupada.
E as queijadas da Graciosa...ai...ai...

Sábado, Julho 28, 2007

4 horas antes de entrar de férias e nem tudo o que parece é

(3,45h AM)


- Olha aqui, sentes?

-Põe a mão aqui por baixo, puxa pá!

-Puxa para baixo, puxa!

- Sentes uma coisinha dura? Ora põe a tua mão em cima da minha.

- Põe a mão por baixo e deixa 2 dedos livres. Toca agora com o polegar e o indicador.

- Não sentes lá uma coisinha dura? Segura aí.

-Estou a vê-la, branca tipo tirinha.

-Puxa pá! Porra! Tens que ser tu a a fazer isto, passa para aqui.

- Lava. Dá-me essa merda, pá!

-Baixa aqui, puxa para baixo…isso…

-Aqui pá!...porra…

-Limpa-me que estou a escorrer.

- Segue a coisa, e só tiras quando eu disser.

-Tira agora devagar o que tens na mão.

-Dá-me outra. Outra pá, estás a dormir?

-Tira lá a tua mãozinha e vamos por isto a aquecer.

-Dá-me outra, troca e leva o estrado.

-Vamos escolher agora um bom sitio, tens aí o banco, e eu meto isto aqui assim…isso.

-Mexe-te! Sentes o coiso, agarra nisso.

-Apanha! Apanhado é apanhando, agarra. Apanha bem, bom!...isso…

-Calma…calma…comprida, dá-me a comprida.

-Dá-me só a pontinha da coisa, guarda e mete.

-Relaxa-mo.

- Vá, vamos lá!

-Isto é fino porra, quanto mais fino mais fura. Dá-me os pequenos e grossos.

-Oh querido, mete-me isso na perpendicular.

-Vocês estão a ver não estão?

-Espera, não te mexas.

-Fais attention!!

-Puxa até sentires a minha resistência. Alça, puxa!

-Larga isso que agora não interessa nada…

- Porra pá!

-Linhas!

-Fechar!

-Porra…estou molhado até lá abaixo…

(4,45h AM) Vagotomia e piloroplastia

Terça-feira, Julho 24, 2007

contra os apontamento de cor


-O uso de meias ou soquetes multicolores é uma afronta pr’a profissão!

-!?

-Sim! Decerto que a colega deve concordar que, usar meias ás riscas com passarinhos, coraçãozinhos e florzinhas, juntamente com socos de cores, honra muito pouco a nossa profissão!

-!?

-Não concorda comigo?

-Está-me o colega a dizer então, que o uso de cores nas meias é indecoroso?

-Completamente! No meio das fardas, o uso de meias de cores com socos de cor é aberrante. Não nos dignifica. Eu de cada vez que olha para os pés de colegas nesta figura fico logo com pouca vontade de voltar a falar com eles. Quando vou ao bloco então é demais. Até parece que andam a gozar com as pessoas!

-!?

Ao olhar-lhe para as meias brancas turcas que brilhavam sobre as calças pretas, enquanto sentado devorava o rissol ás dez da manhã, depois de duas horas de seca sobre halogenados, só consegui fazer um esgar de dor.

- A colega não parece estar de acordo comigo.

-Desculpe. Mas, sinceramente não estou.

-Mas acha bem o uso de meias de cor?

-Nem bem nem mal, estou-me nas tintas. Parece-me pior ver os cabelos sedosos das gajas andarem a esvoaçar pelas pústulas, pelos sacos colectores, pelos estetoscópios dos médicos, pelos suportes de soros e pelos ombros de colegas com meias brancas, que ao fim da manhã até lhe passam a mão pela crina enquanto sorvem o café no bar.

-Já vi que não estamos de acordo.

-Pois não estamos. Já agora, eu trabalho em bloco há 20 anos, uso socos cor de laranja e meias ás cores, ando com os cabelos dentro de barretes verdes, uso mascara e roupas três números acima da minha medida. Não tenho o hábito de passar os doentes a fazer o pino, nem uso calções. Se lhe faz impressão as meias ás cores porque me olha para os pés, do lado de lá da cama?

- Porque é a primeira coisa que me chama a atenção, ora essa!

-Ah, assim faz muito mais sentido…

E como diria o outro senhor, (só em pensamento) foda-se!

Quinta-feira, Julho 19, 2007

tou quase lá...

Quarta-feira, Julho 04, 2007

Era uma vez


uma vida repleta de fragmentos áticos, num mundo emurchecido amalgamado segundo a teoria do caos em múltiplas arcadas facetadas. Mas um dia talvez depois das chuvas, entumeceu-se, criou raízes aéreas, arejando-as sem pudor tal qual feridas gangrenadas, acto de permissão suspenso, andarilhadas dali para a crosta superficial, onde permanecem enfim serenas no limbo morno da dor já reconhecida, somente.

Naquele dia fora do calendário da vida de todos os dias confiei-me e confiei-te. O lado esquerdo maltratado do coração escolhou-se em ti, enquanto os escolhos do lado direito afastados te deixaram passar de mansinho na água rasa.

E agora, deixa lá de brincar aos aviãozinhos e volta para casa já e deixa-me fingir que sou uma gaja fraquinha e que preciso de um peito másculo onde encostar os temores e os humores.

Terça-feira, Junho 19, 2007

emo

Comecei por não perceber a insistência e fixação da minha mais nova no verniz castanho.

– E porque é que não posso usar, e porque é que achas que não devo usar, e porque é que achas horrível, e qual é a tua de não me deixares e porquê, e não posso mesmo usar, e qual é o mal, e todos usam, e, e, e, e.

-Argh! Chega de conversa sobre o verniz. Tens doze anos e não vais para a escola com as unhas dessa cor, assim como também não te deixo ir maquilhada, nem a cheirar a suor. É simples.

Cedeu a rosnar debaixo da franja que invariavelmente lhe cobre o olho direito, meticulosamente alisada todas as manhãs com as placas de desfrisar, a combinar com a camisola cheia de caveiras cor-de-rosa e os ténis aos quadradinhos daqueles que os talhantes usavam há muitos anos atrás. Três manifestações, seguidinhas de uma quarta põe qualquer um com o alerta laranja em rotativo. Esperei, interpretei sinais, muni-me de toda a paciência do mundo, e depois levei com a medalha de mãe metediça, incompreensível e controladora, apenas porque não a deixo passar tardes completas no parque da cidade como os pais dos amigos deixam.

-Pois lamento em preocupar-me. Mas é assim o jogo cá em casa. Tanto me dá como se me deu, que os teus amigos passem a tarde fora de casa, que não estudem, que não ajudem em casa, ou que se dêem mal com as mães bichos papões cotas emboloradas de cabelo à rapaz que assim dá menos trabalho e é à mãe de família.

Esta guerrilha de hormonas é lixada. Eu estou treinada, ela há-de estar.

Ando a digerir esta fase dela ser emo. As posses do fácies triste e pensativo, a boca apetecível voluptuosamente atirada em coração para os sete megapixeis, os noventa e nove amigos do hi5, o síndrome do punk rock rosa choque, do eu emo-te, tu emas-me, amo o mundo mas o mundo odeia-me, da histeria minoritária das amigas para sempre e mais além, da caveira com a tiara ou a coroa ou lá o que é, das meias riscadas nos ténis All Star, ciclope que forja raios apontados à progenitora, a curtir com os ya-ya,"dear diary, my life sucks”.

Esta cena não passa de uma (h)emorroida

Tirem-me deste filme, e já!

Terça-feira, Junho 12, 2007

O cinismo

Onde trabalho, bem como em mais dúzias de sítios semelhantes, a quantidade de pessoas produtivas está abaixo do nível critico. Não é novidade. O povo agradecido pela esmola continua a barafustar com a boca pequenina pelos cantos e pouco mais. Quando a lua vai alta e os chefes brandos já ressonam, os elementos perdedores roem pequenos despojos, salivando bactérias fétidas ininterruptamente sobre os comunicados internos, externos e, outra vias mais ou menos oficiosas de normas e aplicativos que nem para limpar o cu servem porque o papel é modelo A4 HP jacto de tinta especial. Arrotam sempre no fim, lá isso faça-se justiça.

Na manhã seguinte como fiéis servidores absolvidos pela neblina, escondem os nós dos dedos e fazem uso da saliva gelificada espalhando-a abundantemente nas omoplatas do respeitoso feitor do galinheiro. Também nada de novo a oeste.

De vez em vez aparecem bolos. Porque fazem anos, porque alguém fez anos, porque se lembrou apenas, porque o filho foi crismado e tinha lá tantos restos da festa e andam todos em dieta lá em casa, porque alguém lhe deu e pronto aqui come-se tudo, porque até há almas ainda puras e fazem isso há anos e prontes nada como açúcar para compensar merdas de frustrações que não se andam aqui a mostrar e que só existem porque a natureza humana é feita para sofrer, porque hoje é feriado do santo não sei das quantas, porque nasceu alguém, porque operaram alguém com êxito estrondoso e temos sempre que nos mostrar agradecidos àqueles anjos e fadas de mãos frias que foram uns santos tão mal que a minha mãezinha andava é só um agradecimento pequenino, e porque, ao fim de algum tempo alguém se vai embora de vez.

Nesta altura é que a coisa se torna hilariante.

Andaram aqueles filhos de uma grande puta a inventarem aleivosias contra a quase abalada todos os bocadinhos que conseguiram fazendo-a debulhar em lágrimas que chorar até faz bem desentope os canais, revirando os olhos de desdém ela só aqui fazia meio tempo porque quis, e no final de um turno já fizeram desaparecer um bolo de quatro quilos, que verdade seja dita até é uma boa merda seca que nem cornos mas até parece mal a rapariga ter-se dado ao trabalho de vir carregada com aquilo e agora ninguém comer.

E suspirando, limpam os restos da carcaça dos cantos da boquinha delicadamente envolta em batom do cieiro, com o respectivo dedo mindinho espetadinho que a gente aqui é fina.

P'ro caralho!

Domingo, Junho 03, 2007

para bater com a cabeça, prefiro estas

tela dali

Quarta-feira, Maio 30, 2007

Os meus tomates, e os tomates dos outros


Mandaram-me uns tomates. E não, não foi de Espanha, coisa que aliás acho uma parvoíce pegada, a luta dos tomates digo eu, foram reenviados ali do lado.

E agora que faço eu com três pares? Fitei-os à vez vendo-os a esticar e a encolher repletos de vontade própria e, enquanto lhe tomava o peso respectivo, lembrei-me disto.

A primeira vez que ouvi a expressão fulano de tal não tem tomates, deixou-me assim a modos a magicar no dito cujo que não os tinha, intrigada quanto baste para perguntar lá em casa se a história de não ter era uma anomalia adquirida á nascença, ou um acaso infeliz do destino, deve ser horrível decerto não os ter, e dói? Doer doía, mas era uma dor moral uma espécie de cobardia preguiçosa, em que não se tomam atitudes por falta de animismo ou desleixo.

– Ah! Pois estou a ver. E isso só acontece com os homens? Que não. Acontece a todos, homens e mulheres indistintamente, que a grande parte prefere não fazer a fazer o que quer que seja, embora depois passe a maior parte da vida a queixar-se do que não fez, do que lhe fizeram e do que deveriam ter feito.

- Mas as mulheres não têm tomates!

- Pois não, à primeira vista não. Mas essa expressão é antiga. Vem do tempo em que os animais falavam com as mulheres da casa, enquanto os varões andavam armados até aos dentes em quezílias hominídeas. Depois quando chegavam, coçavam demoradamente os ditos e gabavam-se pela noite fora dos feitos másculos.

-Oh avô, mas houve e há muitas mulheres de grandes feitos.

- Mas essas acabaram na fogueira, ou na descrença popular como mulheres homens. Qual é o macho que se preze que não se sinta injuriado por haver alguém sem tomates físicos, mostrar que sem eles consegue tomar trinta e tal decisões e atitudes numa hora sem espalhafatos?

-Isso é um disparate! Os tomates servem para a reprodução ou para serem mexidos com ovos.

-Isso, dizes tu menina, que já nasceste com eles.

E vai daí, embora dona de uns tomates hipotéticos, que ao longo do tempo me compraram bastantes dissabores, e embora ache a expressão pretensiosa, moralista e exclusivista, agradeço ao destino e à minha avô que por sinal os tinha bem grandes, o facto de ter sido gerada com o animismo suficiente, de forma a introduzirem-se com unhas e dentes na sequência de bases do meu ADN.

E agora tirem as conclusões que quiserem, e façam deles o que vos aprouver.

Bem hajam.

Quinta-feira, Maio 24, 2007

Murmúrios na noite

cheee...devagarinho...ou isto derrete-se.

Domingo, Maio 20, 2007

Eles queriam o fim, eu dei-lhe um recomeço no fim.

I - Princípio V

II - Princípio V, Cap. 2

III - Princípio V, Cap. 3:

Terça-feira dir-te-ei que não precisas voltar. A ver.

Disse-lho depois do sexo. Disse-lhe enquanto o mirava no espelho grande quando se afastou até à porta do quarto, nua. Memorizou-lhe as costas curvadas em harmónio os pés enclavinhados no tapete a testa luzidia apoiada nos nós dos dedos, adivinhando-lhe os tremores e nada mais que isso.

Retirou um cigarro do fundo da terceira gaveta da cómoda da entrada, e já na cozinha riscou devagar o fósforo. Fez deslizar lateralmente a janela por cima do lava-loiça e sentou-se com os pés sobre a mesa. O saco de lixo preto meio amarrotado, não passava de um fiapo entre as espirais de fumo.

Tenho que lhe atar as pontas pensou. Quando ele sair. E, esperou tempo que não se lembra pelo clic ao arrancar do esquentador. Sobressaltou-se quando a voz enrouquecida dele murmurou sem minudências encostada à ombreira:

-Anda, veste-te. Vamos deitar o lixo fora. E entretanto dizes-me o teu nome.

- O Livro dos Bons Princípios.

Quarta-feira, Maio 16, 2007

Saciar a curiosidade da Hipatialudovina

Memo, esta palavrinha obliquada, que pode significar tanta coisa e ter tantas variações como o paiol onde está armazenada. Olha que rima tão composta. Adiante. E eis que descrevem o seguinte (nem faço a mínima quem sejam):

(*) Um “meme” é um ” gene cultural” que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma”.

Ora eu como unidade autónoma, já me vi e já me viram de muitos ângulos mas assim é a primeira, depois de muito espremer os poucos neurónios que ainda libertam algum brilho, e meio obnubilada ainda pelo dia da mãe, resolvi escarrapachar aqui umas frasezinhas que vêem muito a propósito, não vão os pirralhos achar que me comem por mona e que é relativamente fácil darem-me cabo da lucidez emocional.

- A mentira tem a perna curta, e é fácilimo amputá-la.

- O crescimento interior é feito de atalhos e becos sem saída.

- A verticalidade de carácter não é um dado adquirido só porque caminhas de pé.

- Vais perceber que és dono do elástico, quando deixares de apanhar com ele na fronha.

- E vê se fechas mais as mãos tipo concha, assim pá tás a ver, ou ainda acabas por largar o pio do mocho por outra banda.

E vamos à praxadela.

Tu.

Tu.

Tu.

Tu.

E, Tu.

Agora vou voltar pró sofá. Com licença.

Quarta-feira, Maio 09, 2007

Hoje matar-te-ei


(em, mais um desafio do Finúrias)

Sinto-me seca de pensar sempre e para sempre no torvelinho de imagens que me projectas que te projectei em danças enroladas nos corpos suados descompassados corredor que nunca acaba em portas que não me permito abrir e tu logo ali na janela a ver-o-mar.

E eu olho-te e só vejo o sol a derreter-me a tinta do cabelo.

Sendo assim, hoje matar-te-ei dentro de mim.

“Cadáver de sexo feminino caucasiano, encontrado por pescador no fundo da falésia, em estado avançado de decomposição. Causa de morte, múltiplas fracturas e esmagamento de impacto. Suicídio?”

Domingo, Maio 06, 2007

Ora bem, tragam-me aí o guardanapo se faz favor...








Quinta-feira, Abril 26, 2007

mandaram-me isto e agradeci com sinceridade, mas desde já vos digo que detesto estas merdas!

tu, volta que não estás perdoado!
.................................................................
a ele que me deixa atenta ás palavras fluídas e subentendidas
a ela porque parece que absorve em cada manhã todo o tempo
a ele porque mistura a vida com a alucinação
a ela porque gosto da forma limpa e desenxovalhada como trata a merdinha diária
e depois ela, porque além de ser minha amiga (e não me venham com tretas do politicamente correcto) tem a forma mais bonita de escrever que tenho lido nos últimos anos

Quarta-feira, Abril 25, 2007

Coisas que a gente descobre, e lhe encharca o peito sabe-se lá porquê


Em pequena sabia nomes de animais que mais ninguém sabia. Quando jogávamos ao Stop, era na letra Ene, que começava a discussão. Só eu conhecia o Narval, peixe grande( que afinal até é um mamífero) de nariz pontiagudo e olhos temerosos de quem desconfia por sistema do próprio sistema das pescas e do tamanho dos buracos das redes por onde tudo se filtra, olha querem ver que me enganei nem era esta rede Senhor Inspector, o Senhor desculpe qualquer coisinha, o Senhor Inspector hoje onde jantará, (pausa para rodar o boné entre as mãos) quer passar lá por casa, que tenho lá uma bagaçeira das antigas que é de estalo? (conversa escrita de cerejas…) ora bem.

Pois o tal de Narval, não convencia ninguém, poucos havia com vontade de vasculhar o dicionário e Net era um futuro científico a congeminar, coisa diabólica que existia no espaço1999. Uau! Tu viste-me bem a Maya a transformar-se no ser horribilis do espaço? Ganda loucura!...

-Tu inventas cada merda! Narval! Isso não conta, a gente não conhece! E pronto.

Eu escrevia zero, mas argumentava até ao fim do jogo, gaja tinhosa, que existia sim e até tinha um livro lá em casa com o desenho do peixe e tudo, burros, cambada de burros que não crêem.

Mas a pior cena era com o Kiwi. Riam-se que nem anormais, porque eu, mais anormal ainda, lhes recitava uma estrofezeca do género:

O Kiwi não voa

Dá saltos à toa

Kiwi estou aqui

Kiwi estou ali

E eu tinha uma pena que não era capaz de explicar do pássaro que andava por ali sem capacidade de voo, mas sempre a tentar aos pulinhos, e a ilustração mostrava um bicho reboludinho e atarracado com um bico grande e ar triste e eu sempre com pena do bicho nunca me esquecia do nome dele. E na Biblioteca Municipal onde aprendi a decorar o número do B.I., procurei pelo Kiwi e quando o encontrei, guardei-o só para mim que o bicho era raro, e continuava a ter um ar triste e eu era lá gaja de deixar que se rissem do pequeno de asas ineficazes. Tenta lá mais uma vez que eu ajudo-te, pá!

E eis que, depois destes anos passados, volto a encontrar o Kiwi muito mais activo, sempre aos pulos, e capaz de transformar o sonho de voar, e capaz de me deixar a lágrima fácil, agora não por pena mas por alegria, de lhe ver o ar extasiado quando o ar lhe começa a bater no bico pontiagudo.

-Ah, ganda Kiwi, eu sabia que tu sabias que vais estatelar-te lá em baixo, mas que jamais consegues perder a capacidade de sonhar!

Vídeo roubado despudoradamente da Luz e sombra.

Segunda-feira, Abril 23, 2007

na mouche

Elipse said...

... e que fastio de fachadas e de figuras fúteis, fabulosas no seus fatos de fotografia;
...e das revistas rosadas, de criaturas espalmadas que se encornam nos intervalos dos dias;
... e dos meninos adultos que apontam armas às ideologias do sentir, porque trocaram o pensar pelo agir.
... e das mentiras avulsas ditas na televisão com imagens à mistura a convencer-nos de que vida é fácil, futil, fabulosa...

... mas é dura!

nem imaginam ainda como, mas dá-lhe tempo, deixa-os poisar..

Domingo, Abril 15, 2007

Galeria V

Ai...

Que fastio de criaturas apalaçadas, geométricos e gélidos salões amplo espaço onde tudo cabe e não está lá nada.

Ai.

Que fastio olhar de longe o esborratado da iluminura debruada a ouro fosco, enquanto me acomodo na borda da cadeira manca meio inglesada.

- Não me ouves?

- É porque estás lá longe, e os tectos são altos.

-Quê?

- E os brocados são do século passado.

-Fala mais alto.

-Os brocados. Os bocados dos brocados, consegues ver?

- Mal. Estão longe.

-Pois estão. Mas são brocados. Nas janelas. Não as abres de vez em quando?

Ai...
Que fastio de morte e os salões com tantas portas. E o eco titilante das moribundas traças cegas esvoaçantes, continua a dispersar-me.

Segunda-feira, Abril 02, 2007

Bigodes


Existem normas de conduta intuitivas ou meramente adquiridas pela repetição, dificilmente não aplicadas porque habitam ou parasitam o nosso subconsciente, que nos levam por impulso programado a agir num determinado padrão a determinada hora ou apenas naquele dia que se tornou especial apenas porque, por exemplo, hoje é o dia de aniversário de alguém e vai daí a primeira coisa que a cabeçorra nos lança em bites programados é ir a correr dar os parabéns da praxe.

Ao fim de muitas tentativas e erros, e porra como me doeram, ainda aprendi alguma coisita com eles, tipo, os impulsos programáticos formatam-se, não somos obrigados a gostar da população em geral, lá porque não andamos constantemente a dar palmadinhas nas omoplatas alheias não quer dizer que nos estamos a cagar, podemos estar meses sem saber de quem gostamos mas o lugar continua presente, e outras banalidades como as que já debitei para aqui.

A vidinha é uma treta, mas estamos cá por um acaso do destino e vamos actuando segundo os quartetos, uns com mais sentido rítmico que outros.

E porque tu minha amiga, mesmo perto na maioria das vezes me continuas longe, não interessa saber se são as pontes, as velas rasgadas, os dias acidulados ou a porcaria do dinheiro que não se estica, hoje fazes anos e, eu já indolente e programada te mandei por SMS o cartão instituído, venho aqui no éter deixar-te a ração anti bolas de pelo e aguardar serenamente o dia de sol em que te irei afagar o pelo macio.

Hoje já te disse como te gosto duas vezes. O resto dos dias são gostares silenciosos. Mea culpa. Traz a chibata.

Sábado, Março 24, 2007

Parabéns Hipatialudovina


Voz de vento,

voz de tempo,

voz de lamento, em tormento resolvido.

Voz de contentamento.

Voz de dentro.

Em ti,

nos outros,

para ti.

Que sejam tantos e suficientes para continuares a crescer por dentro HipatiaLudovina

Segunda-feira, Março 12, 2007

Galeria IV

Ás 15,32h atravessou várias passadeiras curvada pelos sacos do mini preço, a mochila escolar meio cambada presa por um dos apoios, o casaco dela e o casaco do puto mais novo contra a axila direita, e a mala de mão enganchada na rosa meio murcha que lhe tinham atirado literalmente para a mão à uma hora atrás no supermercado.

Feliz dia da mulher repetiram-lhe toda a manhã e ela agradeceu e tudo e só pensava para que queriam as mulheres esse dia que até era igual aos outros todos mais um de lava e esfrega e faz de mula e de ama e cozinheira e ainda por cima o homem logo até por andarem por aí a dizer que este é um dia diferente até vai dar-lhe mais que os dois beijos habituais antes da coisa com a barba por fazer e com cheiros de todos os sítios por onde andou.

De manhã ao levantar-se perto das 6,00h, ao olhar de cabeça à banda a rosa deslavada, deixou esturricar as torradas, atirou-a com raiva pela janela da cozinha e, ficou ali encostada a ver o gato a esfarelá-la.

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

Galeria III

Arrastou-se pelos corredores enquanto enchia o cesto de plástico vermelho, com uma embalagem de bacalhau à Brás pré cozinhada, quatro maçãs, dois bio-activos bebíveis, um pack de cervejas, uma embalagem pequena de cogumelos laminados em lata, uma pasta de dentes branqueadora, um frasco de vidro de espargos, uma lata de enchovas, outra de salmão fumado, e três queques de aveia. Já não tinha pó para a roupa, mas não lhe apetecia mais fardo. Pagou com o cartão Multibanco, fez um sorriso amarelo à piquena da caixa, e atirou com os sacos de plástico para o banco do pendura.
Seguiu as luzes amarelecidas da auto-estrada, atestou o comercial, e em duas dentadas fez desaparecer o chocolate Bounty amolecido pela sofagem.

A imagem devolvida, com a testa pendurada no espelho do elevador dava-lhe um ar esgazeado e fechou as pálpebras. Fechou a porta do apartamento com um piparote de calcanhar, deixou o casaco sobre a consola da entrada, os sapatos à entrada da cozinha, a gravata sobre o micro-ondas, e o cinto das calças pendurado no bidé.
Descobriu o comando do LCD em cima da pilha de revistas Automotor ao lado da banheira, encalhou nos sapatos, não encontrou o abre-latas, entalou a gravata no microondas que ficou a cheirar a peixe cozido, disse seiscentos e dois palavrões, ficou em meias e boxers a esfarelar o queque no sofá, e acordou perto das quatro da manhã com um papel de rebuçado colado ao peito onde por entre as ramelas conseguiu ler, dissolveu-se na salinidade da manhã, esquecendo-se do doce na língua que lhe sobrara da tarde.

Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

Galeria II

Encavalitada no escadote abanava as pernas num vaivém hipnótico, enquanto ele serrava furiosamente a perna da mesa.
- Essa porra vai ficar mais curta, murmurou-lhe ela.
-Lá estás tu com esse feitiozinho destrutivo.
- Só te estou a dizer que vai ficar mais curta, consigo ver daqui.
- Consegues ver daí! Consegues ver daí! As coisas que consegues ver de cima de um escadote. Devias montar um consultório, já pensaste nisso?
- Já. Mas não preciso montar coisa nenhuma para ver daqui que continuas um artesão de mão cheia.
E atirou-lhe com a fita métrica como se fosse uma serpentina.

.....................................................................................................

- Queres ajuda?
Retirou devagar a cabeça debaixo do lava-loiça e olhou-o de esguelha.
- E então, queres ajuda ou quê?
- Não. Não precisava era de estar a fazer aquilo que te tinha pedido para fazeres há mais de um mês.
- Até parece que era um caso de vida ou morte. Ainda não tive tempo é só isso.
Ela voltou a enfiar meio corpo no armário e rosnou-lhe do meio dos detergentes:
- Vai mas é apanhar a roupa, e já agora vê se está a chover.
- E se estiver, achas que vale a pena apanhar a roupa molhada?

Domingo, Fevereiro 11, 2007

sons que me perseguem


Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Encruzilhadas

Há quem se mate para os ter e quem se mate para os não ter.
Há quem se mate para matar os dos outros e quem mate os dos outros, independentemente do tamanho, da cor da raça ou do credo, amado ou odiado, querendo ou não morrer, aguardando as leis da natureza ou tomando poses de rei demenciado e iluminado. A todo o instante se mata e se morre, com razões que a própria razão desconhece, lá dizia o outro.

Biologicamente, somos os maiores predadores do planeta. Diariamente esgrimimos a maior profusão de argumentos mais ou menos lógicos, para justificar o parasitismo. Dominamos, pervertemos, aniquilamos, semeamos e repartimos conforme as vontades de cada poder. Instituímos e moderamos bolas de neve que ás escuras moldámos egoisticamente. Forjamos direitos e deveres sem praticidade, pois, cada um é portador de um cérebro com interfaces diferentes.
Perdeu-se em nenhures o respeito pela individualidade e capacidade de decisão. Fomentam-se revoltas de liberdade, cômpitos amaneirados gerados para confundir.

Somos demasiados com passados perturbadores, imbuídos de culpas que nos forjaram desde a nascença. A nossa diferença está na inteligência? Naquela que nos usurpam metodicamente, em reivindicações demasiado batidas? Ou na capacidade de seguir ordens por medos? Tornaram-nos donos e senhores de nós próprios para auto recriação, ou apenas não sabemos e ou não merecemos essa parte privada e una?

Só se sente a falta quando não se tem e apenas só quando se teve. Sem ter tido desconhecesse-se a falta, e torna-se completamente despropositado aderir a causas sem sequer termos capacidade de moderar as nossas.
É mais confortável viver a vida de outrem. A nossa, é comezinha cheia de achaques e não tem gracinha nenhuma.

Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

Quando eu for grande







- O que queres ser quando fores grande? Perguntava a Mar.
- Quando eu for grande quero ser arqueóloga, andar de joelhos com um pincel a escavar devagarinho e em silêncio, coisas que os vivos deixaram aos mortos para nunca esquecerem a sua parte terrena. Juntar bocadinhos de barro, contas e ferros e ossos, até renascer o esquecido. Perceber do que morreram, quando morreram, quem eram e quanto eram amados ou odiados. Agradecer oferendas misteriosas de coisas soltas que só eu saberia juntar.
Mas tudo era tempo demais, e eu queria mesmo era bazar depressa para um tecto pago por mim.

Entretanto, pintava coisas e lousas, e tábuas e paredes e tectos, e via-me Miguel Ângelo no andaime, esborratada de tintas e cores, e as formas a pular nas galerias em caras espantadas de gozos. Mas a vida não me quis de boina ao lado, a vida de artista era o sub mundo e ninguém lá em casa me deixou ficar com os pincéis. Ficas com as paredes que até tens jeitinho.

Depois, o sonho foi esmorecendo ao lado dos sapatos de pontas que se riam estuporados no fundo do armário. Era demasiado ossuda, demasiado grande, demasiado masculinizada, demasiado independente, sem o lado de bijou queridinho, e depois de ter partido o espelho inadvertidamente com uma patada, aconselharam-me delicadamente a procurar um rumo mais adequado à quantidade de massa muscular que não parava sossegada no maiô.

Armar-me em maluca com estilo, resultou numa fractura de rótulas num salto idiota de confiança sobre a mesa alemã. Chama-se a isto, hormonas em desacordo absoluto. E, quando as costas retesadas de músculos do remo decidiram rebentar com todos os botões da camisa, parei. Os calos nas mãos incomodavam muita gente, e eu tinha uma noção muito vaga do que era uma manicure.

Agora passo a vida mascarada de azul, entre ossos e visceras e nervos e humores, num ambiente asséptico sem poeiras e sol, agradecendo a percepção da dor para tentar minimizar a dos outros. Pinto com betadine corpos, faço pinos com sapatões cor-de-laranja, danço ás vezes pelos corredores, e manejo peças soltas esquecidas pelos vivos que montadas dão caixas de bujigangas metalizadas.

Plim!

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Sopa de letras

Na voz estava um link com um "desafio", e apeteceu-me brincar com ele.
Toma Ludovina, é teu.


FORMAS, DEGRAUS, ÁGUA, ESPELHO, SEXO, MORTE, PELE, ECO, RETALHOS, AUDÁCIA, TELA, NEGRUME, CAFÉ, GESTOS, NORTE, VOZ, VIDA, PEDRA, SENTIDOS.


Falavas-me das mágoas que te dilaceram as entranhas como um tumor a minar, a minar, a morte perto e tão longe, a cegueira de não olhar o brilho da lua e das estepes na tépida modorra das manhãs, no teu lado Norte lunar acabrunhado, arrastado peso culpa enevoavando-te a felicidade no fim da tarde, em passos e gestos tolhidos, nas formas da caminhada oprimida dos prantos, agora riachos finos e moribundos de água choca.

E eu espelho, encolhida a tapar-me devagar de ti e a pensar num final diferente, nos amores e dos amores e daqueles que descreves que não têm entremeios, nem meios, nem fim, que nos respiram através da pele, do sexo projectado eco vento, em retalhos de cheiros e toques, num pestanejar furtuito enquanto mexes o negrume do café.
E enquanto a voz te abranda, vejo-me pedra, vida, tela retesada, e fremem-me as células, a crescer e mirrar, e voltear e rodopiar e enrolar, no núcleo apertado dos afectos escondidinhos que sobrevivem a pulsar, na audácia em saborear o bem e o mal que nos dizimam os sentidos. Daqueles que nos marcam a ferro indeléveis o sentir.

E a descer descuidada os degraus ainda te atiro em modos de despedida:
- E olha... um grande amor não tem que necessariamente deixar saudades. Pode-nos deixar plenos, íntegros, seguros de saber que se foi capaz, e que se é capaz de continuar a amar mesmo depois do fim.

Sexta-feira, Janeiro 05, 2007

Galeria I


(5,15h da matina, sem doentes e sem sono)


O Sr. Eu Acho Porque Me Conheço, pendeu ao de leve a cabeça de lado e suspirou. Manteve-se estático o tempo suficiente para que os olhos presenteadores saraivassem as orbitas à procura de desvios.

Suspirou segunda vez e sentou-se hirto. Parou-lhe a dança orbital quando o joelho cruzou a perna oposta e deixou a biqueira do sapato vela, é a segunda vez que ela não me engraxa os sapatos, a apontar ameaçador a pintura pendurada da parede.

A Sra. Eu Penso Cá Fundo e Dói-me, arqueou a sobrancelha esquerda e arrecadou atrás da orelha a madeixa aloirada que lhe assomava a irritação nervosa. Só ela soube que suspirou.

Continuou um pouco dobrada pelo peso das culpas e desamores e, descolou discretamente a camisola que teimava em agarrar-se ás pregas quase simétricas por debaixo das omoplatas, a parva da empregada anda a lavar-me os soutiens na máquina outra vez, e pousou as mãos hidratadas lateralmente ao corpo no banco corrido.

A Sra. Limpe e Despache-se, enfiou num arranque brusco a pá de cabo alto no armário da parede, e ajeitou a vassoura que se lembra sempre de cair a esta hora, a mania dos tremeliques de merda que esta tem, deve julgar-se fina a bicha, agarra-te aí à pá e já gozas, e numa fungadela discreta limpou o nariz ao pano amarelo que lhe pendia do bolso que tinha uma lista branca fininha, a condizer com o colarinho que se lhe colava ao pescoço curto e brilhante.

O Sr. Sou Culto Porque Até Venho a Sítios Destes, passou lesto por entre as lajes de xisto encerado do corredor, gerando um chiado desconfortável que se agarrava ás paredes modernamente pintados de branco cinza da galeria, e entrou na sala nº IV.

Suspirou austeramente, o incomodo que é andar tantos metros no silêncio, e manteve-se de pé a olhar para a parede.

O puto Salto Porque Ainda tenho a Mola Boa, entrou de rompante a derrapar numa curva apertada a buzinar entre a falha dos dentes que a fada boa da noite levou, ou é a dos dentinhos, já não me lembro, tenho que perguntar à mãe outra vez, e ficou um bocadinho curto de boca aberta a olhar, ora para a parede, ora para os adultos silenciosos que pareciam parvos ali parados e, exclamou em tom de claxon:

- Este quadro é bué feio!

Depois de engrenada a segunda, saiu a derrapar em direcção à sala nº V numa rasante perfeita à escultura de madeira da Polinésia.

Soaram então compassados três suspiros, e sem se entreolharem, um a um, abandonaram silenciosamente a sala em rota simétrica à sala nº VI.

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

Três


Três.

Três de conta que alguém fez,

Três de quando um dia começou

Três de mais um que acabou

Três de graça brejeira, ladina e lesta.

Três de trigueira

Três de maneira a nos deixar meio zonzos

Três de Sr. Doutor ajudai-me que eu com as palavras vos ajuizarei

Três de seguida na sacada, no vão da escada e no quintal

Três de Maria que não quer ser santa

Três de maneira a não doer

Três de mulher que quer saber

Três anos de saber o diferente a dar de ler

Um, dois, três, era uma vez um gato maltês.

Três.

Obrigado marietree

Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

Chegada ao fundo



Aqui no fundo perco a totalidade e vivo de bocados dispersos.

Bocados de cores e formas de vida sobre o vidro.

A volta foi violenta, perde-se matéria, formas sombrias que se transportam há tempo demais e que vão ficando ancoradas.

Lidar com as cenas violentas dos outros nunca me fez bem, e eu faço ressacas longas.

Apesar da reconstrução, é como se estivesse tudo suspenso num fundo azul que o sol aquece aos bocados ao sabor da corrente em escoras mal alinhadas.

Sinto falta das conversas de chacha e dos risos familiares.

Deve ser o fim de mais um ano e a ânsia mal disfarçada dos espaços, fluidos e sons.

Deve ser.

Para o ano logo se vê.

Até lá.



a imagem é dali

Sábado, Dezembro 23, 2006

porque não pode ser tudo assim simplex?

Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

jingobel



Vim aqui de corrida coxa que ainda estou de pés dormentes do frio da antárctica, não descalcei as galochas peludas nem nada, aproveito sempre esta altura para ter férias de Inverno para caça grossa, arranjando assim a desculpa quase perfeita para não frequentar reuniões de serviço em espécie de balanço de fim do ano e em que, por um infeliz acaso se juntam as festinhas histéricas pré natalícias onde toda a gente finge melhor que se gosta, nada como uns canecos para puxar o sentimento da ordem, apropositotambémgostomuitodetodos, hic!

Porra já me perdi...

Ah! sim, já sei!

E como não fui feita para estorvar filas de grandes superfícies, que a mim ainda só me pagam para estorvar no trabalho, que eu sigo sempre os lemas do serviço, neste caso bastante simples, tipo se não poderes ajudar atrapalha que o importante é colaborar, não vou para ali ainda arranjar mais confusão, pois a multidão que se atropela freneticamente com uma incivilidade fora de controle, agora nota-se ainda mais é certo, continua a dar eficazmente para aquele peditório e não precisam de mais um, e o gajo da farmácia já me ameaçou que não me vende mais Ultra-Levure, embora perceba que não há cu que aguente o som do jingobel jingobel já não há papel.

Assim sendo, fico-me pela quantidade absurda das neves, aquele frigorifico ainda é bué clássico, nada de non frost e nível energético X ou Z quase de certeza, é de aproveitar enquanto a caca dos pinguins ainda a mantêm mais ou menos segura, e vai daí persigo rastos de trenós e pegadas de renas enquanto oleio e olho embevecida o sol que brilha na carabina.

Resta esclarecer, que não sou culpada pelo assassinato dos bichos renas ali de cima. Sou contra a morte gratuita de animais de quatro patas.

Bem hajam.

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006


As palavras,

ficaram suspensas nas gotas de orvalho que te deixei de manhã.

Não te molharam as mãos?

Repara, estão lá, titilantes e frágeis, um toque e deslizam na folhagem verde veludo dos fetos da mata, no cheiro da madeira húmida pejada de líquenes, no musgo fofo da rocha onde pouso a mão sentada à espera da madrugada.

Não te espelhas no brilho?

Não?

Que parte embaçada te fez a vida?

Tornou-se demasiado oferecida?


imagem daqui

Sexta-feira, Dezembro 01, 2006

(Semi )Elipse


Anda cansada mulher que se custa a aceitar no lugar, feita de impulsos travados e na pena escritos, pena na mão e pena no lado de dentro do peito, a vida a correr e ela a dar aos meninos a aprender tão cansada que está, mulher flor fechada que se deixa regar aos bocadinhos curtos que são bons demais e podem acabar não se pode deixar apanhar, mulher luar na ponte e no rio e no ventre que foi fecundo, e tanto que dá e deu e dor e lamento e a casa a ficar calada, e a mão na mão dele e o corpo sequioso que precisa de se abrir e rir e deixar ir para longe aquilo que não quer esquecer, mas tem que ser, e vai quer queira ou não um dia deixar a chama ave aprisionada levantar voo para fora do peito.

Nem que eu tenha que a arrancar com as mãos nuas, Elipse mulher baralho.

imagem daqui

Terça-feira, Novembro 21, 2006

O livro dos bons principios

Em casa, ela apertava o saco do lixo quando ouviu um relógio bater as horas. Foi à janela e ficou lá parada durante muito tempo.

Depois lentamente desceu à calçada.

Ela nem queria, e dizia alto sempre que despejava o lixo, como quem despeja partes, eu nem preciso, nem quero. Mas queria cama, isso ela sabia que queria, aquele morno uterino de noite, a lembrar-lhe a dor da entrega em corpo. Corpo padecido em projecção furiosa e ávida, carnes frágeis.

Depois, tudo se lava, translúcida que arrasta o cheiro, as mãos, o hálito, as palavras fechadas no fundo da garganta.

Lavo-me e lavo-te. E despejo o lixo como te despejo a ti. Eu que nem preciso. Tu que me alivias e me transformas as formas em peso arrastado, só corpo, marcas de pés e mãos e cheiros, sem memórias.

Lavo-me. Devagar e minuciosamente, enquanto me escoo espiralada em espuma pelo ralo.

Hoje é só quinta-feira.

Terça-feira dir-te-ei que não precisas voltar. A ver.

Segunda-feira, Novembro 20, 2006

Mais dois



imagem daqui

Sela-te o dia mais uma capa, em pranto engolido enquanto despes lânguida o fato curvilíneo de lisa madeira que te adorna.

Em clave de dó na calada da noite libertas as mais belas melopeias células de ti, para que, na madrugada no morno dos lençóis te espreguices mais um dia em clave de sol.

Parabéns pelos dois anos de cultura gratuita Maria Divas

Sexta-feira, Novembro 17, 2006

Mais um



Sei que a terra ainda morna te adormece a semente lactente e impávida no seu sono invernal.

Sei da humidade na cápsula inchada e fértil.

Sei que a pequena raiz afoita e sequiosa dos húmus calcados de gerações se desenrola silenciosa, esticando preguiçosas radículas imberbes e ociosas.

E sei ainda que num qualquer silencio de uma noite fresca e vibrátil, se vai erguer qual Fénix um Arbo em língua de esperanto.

E em cada anel uma vida e em cada vida todas as vidas e em todas as vidas que se reste o universo mudo e observador da amalgama das vidas que se tornarão sementes cápsulas inchadas de nós restos.

E já apertei o cilício do tempo, que não tenho, para te desejar todos os anéis do mundo MarieTree.

Terça-feira, Novembro 07, 2006

730

Daqui


Esta cena da blogosfera é um quintal gigante cheio de vizinhos, uns muito arrumadinhos, outros em completo delírio oligofrénico cheios de graça desde já vos digo, que eu de aprumos gasto apenas oito horas diárias.

Ora depois das coisadas essenciais, abre-se a janela, o portão, a cancela ou o postigo, e atiramo-nos com despudor ao prado. E é vê-los agarrados ao estendal em bicos de pés, boca recheada de molas multicolores, enquanto pontapeiam flores, sapos e arganazes, estrelinhas prateadas, sapatos de quarto e botas de tropa, vaidades engalanadas, cueiros amarelecidos, lencinhos de assoar, e tapetes da casa de banho.

E queixam-se. Das dores, dos desamores, dos desencontros, das vaidades, das aleivosias, das dores de coto, do sistema, da renda, da chuva, do calor, das filas, do mau humor misterioso da gaja da caixa.

E gabam-se. Do que era, como era, como poderia ser, o como deveria parecer, o quanto se é melhor que o pior que eu bem li, e emproam o nariz.
- Chiii…olha a quantidade de macacos pá! Vai-te assoar imediatamente!

Quando por fim o terreno está completamente escarafunchado, e aspergido de mijinhas em jeito de cio incipiente, sacudimos a plumagem, enrolamos o rabo, deixamos as galochas de borracha na entrada, devidamente enlameadas, caímos sobre qualquer sítio que nos aguente com aquele sorrisinho de merda de quem já foi à tropa e sabe bem como é.

- Ai filhos, as saudades que eu já tinha da minha rica casinha. E espelho meu, espelho meu.

Trivial e croquetes.

(e sabe-se lá porque carga de água ando eu nisto há dois anos…pffff!)

Sexta-feira, Novembro 03, 2006

É pr'a ir pr'a onde?!

Outono diluviano.

Chove chuva, chove sem parar, limpa a terra dos homens secos e sombrios que falam de dores tristes fados lavados em vinho e estupor, enquanto de canivete fininho de bolso raspam unhas sujas de queijo e suor. Encharca-lhe as lamas do quintal, regurgita-lhe as sarjetas, as valas as paliçadas, os riachos agora rios, as pedras abortadas da calçada, as barragens, barrancos, covas e poços.

E no dilúvio culpa de outrem, sentada como convêm, ligo o directo e de olho fixo interrogo:
- Alguma alminha crente na Santa Bárbara me decifra o que significa o "milagre da não chuva" de que fala o jornalista em directo da TVI !?

Quinta-feira, Novembro 02, 2006

Dignidade é enviar várias vidas para que em terra firme se chore a morte.
E nisso não há quem bata os Japoneses.
Na montanha Shisha Pangma, o trono dos deuses, repousará em paz por fim o espírito de quem nele esteve sentado.

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

Dia de bruxas

Sexta-feira, Outubro 27, 2006


Aos vinte e dois anos numa noite qualquer ao acaso, meti toda a roupa que consegui em duas pesadas mochilas e iniciei a reconstrução do segundo mundo.
Aos trinta e nove sem roupa nem mochilas, iniciei o terceiro.

As fronteiras que nos cercam e paralisam.
É absurdamente complicado acostumar olhos a desfocalizar a trave.
Quem sabe se a cegueira temporária é a cura da reaprendizagem.
Da chave que nos abre a cancela.
Da cancela onde o cotovelo repousa gasto.

Aos quarenta e um, o portal do quarto mundo arrastou-me num turbilhão.
Como rã, aproveito as poças frescas e não reconheço a pele já riscada que se olha.

Ando repleta de mundos reconstruídos.
Aos quarenta e três perdi o rasto da cancela, mas tenho guardado no coração o comando acobreado do portal.

Imagem daqui

Terça-feira, Outubro 10, 2006

Está o anúncio feito



Em Abril deste quase findo ano, o fazdeconta decidiu reproduzir-se. E como é da praxe da casa, levou com o nome da progenitora, acrescentando-lhe um II, o que só de si revela a pouca imaginação que grassa por aqui.

Vem isto agora a propósito, de um levantar de queixos da Bigodes, que apareceu lá por “casa” por mero acaso, a refilar que não lhe tinha dado um cartãozinho de apresentação (se não andasses de cornos no ar e distraída, já te tinhas dado conta da tasca à mais tempo!! Ora vê lá se os outros não paravam por ali a beber uns copos?).

Pois fica aqui o convite.
Ide lá ver e comprar, que aquela porcaria não serve apenas para gozo único e pessoal, fica bem nas salas e WCs de Vossas Excelências ou até no corredor ou hall ou escritório ou em cima do pechiché ou nas traseiras da garagem ou na entrada da casota do seu animal de eleição.
Um sem fim de escolhas e utilidades (sem a madeira, e bem amarrotado...)

Sábado, Outubro 07, 2006

Duzentos

Pediram-me( o Soslayo ) para falar sobre valores. Os meus próprios decerto, que dos outros, a humanidade tem vindo devagarinho a torneá-los como se de um valor absoluto se tomasse parte ausente. Que nunca foi em linha recta, nem jamais poderá ser, pois a interacção entre o sujeito e o objecto carrega na aba variadas camuflagens. Cada um é senhor de inflacionar o preço, mostrando a peça em ângulos variáveis, esmiuçando-lhe atributos de que só o próprio se orgulha na totalidade.
É difícil falar-te de valores, sem corrermos linhas batidas, definições completamente dissecadas que os mestres nos dão a ler.

Dos meus valores primários básicos, resultaram os restantes para a sua satisfação. São banais.
Os valores humanos, esses, foram crescendo devagarinho, aprendendo a hierarquia, o top das prioridades. Na mera aprendizagem do crescimento adquiri mais uns tantos, e fui-me lembrando de outros mais, que me foram segredados ao ouvido, ora sibilinamente, ora através de sopapos.
Os meus valores, não são vendáveis, nem podem ser encapsulados. Nem sequer catalogados. São a consciência humana, da totalidade, da igualdade, da livre circulação e pensamento. São uns hippies. Encalhados entre a consideração, a escolha, e o movimento de rotação que dou ás decisões, de como elas poderão influenciar os outros, e o troco que depois levo para casa.
É uma noia. Mas é na nesta “bipolaridade” que me aceito. Dos valores de que não prescindo, e dos valores que são pertença de outrem.
Trata-se apenas de gestão.
De humildade.
De gratidão.
De reconhecimento.
De aceitação.
De conhecimento.
De não julgamento.
Da liberdade de escolha.

A porra acontece, quando valores subjectivos colidem com os meus. Os tais considerados como posições pessoais. Sem base numa “escolha racional”, apenas porque sim, e porque eu quero. Assim não vão lá. Lá está a cena dos valores diferentes e da não-aceitação. Há logo “porrada”. Todos temos um lado apeixeirado, onde a minha canastra é maior que a tua, oh freguesa olhe lá o meu peixinho fresquinho de olhos firmes e arremelgados!
São valores.
Num patamar diferente, mas não deixam de ser valores.

Sábado, Setembro 30, 2006

- Escuta lá...


...porque é que tens uma girafa de pernas para o ar aí no portátil?
- É um balão.
- Um balão? Para mim é uma girafa.
- Uma girafa balão.
- Ah! Mas também tem umas zebras de patas para o ar.
- É o hélio…
- O hélio?! Dos balões?
- Sim, desses.
- Mas qual é a graça disso?
- Das barrigas de hélio?
- Sim, qual é a piada de estarem de patas pr’o ar?
- É imaginativo apenas. Alguma vez pensaste por uma girafa e duas zebras cheias de hélio, até ficarem de patas para o ar?
- Que parvoíce! Claro que nem me passaria tal coisa pela cabeça.
- Pois…isso eu sei…
- Ás vezes não te percebo.
- Eu sei.

Quinta-feira, Setembro 28, 2006

olhem só que bonitinho...e deu certinho e tudo

You Are Impressionism

You think the world is quite beautiful, especially if you look at it in new and interesting ways.
You tend to focus on color and movement in art.
For you, seeing the big picture is much more important than recording every little detail.
You can find inspiration anywhere... especially from nature.

Sexta-feira, Setembro 22, 2006

Correntezas de incertezas várias, fumadas por favor, que eu gosto



Desafios, diz o Bagaço, depois de desafiado pela Divas, formas comuns de correntes, uma forma adulta de brincar ao verdade ou consequência, que acaba sempre por nos sair um poucochinho cara, pois de qualquer beco e esquina logo há-de aparecer o Lobo mau, e com o hálito bestifero vosso conhecido, mirra de imediato qualquer palha que se digne e se esmifre por se manter armada em palha encostada a tantas outras palhas a quem chamaram casebre. E a propósito de palhas, e de palhetas, o que eu gosto de palhetas acompanhadas ou não por caracoletas, não escargots que se comem com um garfo estúpido, e depois perde-se o gozo do molho a escorrer por entre os dedos, alojando-se em meia circunferência na parte posterior da camisola, mas até te ris, que depois de umas cervejas até te estás mesmo a preocupar com a porcaria do molho que já escorre em cascata ensopando aquela parte das calças a que chamam boca de sino quase tão mau como os sapatos de sola à barco.
Pausa para respirar…
Dizia eu do desafio um género de desfolhada, prima da palha, protegem-se os alérgicos, que o vento anda de bailarico algarvio a moer o pedúnculo ás folhas, daquelas que a minha filha apanha grandes parras cor de mel, e poisa cuidadosamente no tablier e diz: - São para ti, mãe. E eu sempre que a olho nestas alturas, só lhe recordo os pés ervilha encostados no meu xifoideu, o hálito quente com cheiro de amêijoa a embranquecer-me a sobrancelha, e o ventre macio globuloso que se arrepia ao fresco das minhas mãos.
Ia eu nos desafios…
Já volto. Vou só ali só ver se os dois gajos estão tapados, que o tempo arrefeceu e já me pediram o edredão, mas eu lá sei que se hão-de destapar, que as hormonas são um bichos ferozes que trepam pelo peito acima da canalha e, os põe destapados até ao abdómen liso e seco de quem cresceu depressa demais e eu quase nem tive tempo de me sentar a ver.
Com licença.

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

Escusavas a resposta

- No outro dia, ias baixinha no Opel Corsa.
- É verdade. Faz bem a qualquer um descer ao rés-do-chão e, não perder de todo o contacto com a populaça.
- …

E neste dia de chuva fértil, um conto...

Sábado, Setembro 16, 2006

Nebulosa


imagem daqui

Os meus pés descalços acariciam o soalho de tábuas corridas, enquanto o nariz freme doloso na saudade do cheiro da terra molhada. Imóvel, retenho a memória cheiro e rumino-a pateticamente.
No meio da tarde tenho um sol, da cor do orgulho de sermos aquilo que nos fazem ser às vezes, e quase sempre sou capaz de manter numa espécie de ética quase indestrutível.
Na abrigada da noite retomo a contagem dos astros, e dou duas voltinhas de mota pelos corpos menores do sistema solar. Quando a nebulosa se começa a aglutinar, em corpos planetesimais com até alguns quilómetros de diâmetro, que com múltiplas colisões acabam por formar corpos maiores, conhecidos como protoplanetas ( in-http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_solar), cavo de fininho, pois não sou de grupos embora simpatize com minorias.
E depois coberta de pó da criação, abro o chuveiro e sinto-lhe o cheiro.

E volto sempre, mesmo que seja tarde.


Quarta-feira, Setembro 13, 2006

A versão polaróide


Depois de várias guinadas o carro resvalou na berma e deixou-se inundar de pó. Ficou por ali parado no arrolhar do motor e, no gorgolejar que subia de tom nas vagas dos olhos dela.
Esmurrando várias vezes o volante abriu-se-lhe na alma o grito embrutecido.
Emudeceram as cigarras e a coruja do celeiro. O organaz parou de roer, e os cães fitaram o escuro.
Lembrou-se de um número impresso numa qualquer parte, qualquer manhosice de voz amiga, SOS dos aflitos ou um misto de coisa nenhuma.
- Que era tarde e tal, que era longe e coiso, olhe vá ter com alguém amigo, à policia, ao Samouco, ao Hospital, e pronto olhe respire fundo que tudo se resolve, beba um copo de água, lave os dentes e durma, que uma noite de sono, e patatipatátá.
A cara de parva com que se olhou no retrovisor e as cigarras num berreiro e a lua tapada decrescente e o carro ainda a trabalhar e o telemóvel esventrado pela bateria e o pó que lhe arranhava os dentes e as mãos enclavinhadas no volante e a ira a amarfanhar-lhe o ventre e o som surdo das têmporas ali enfiado.

No silêncio reposto da madrugada obrigou-se à postura, acendeu o cigarro.

Só quando lhe resvalou o pé suado na embraiagem, é que percebeu que a leveza não era por estar descalça. Tinha perdido a peia.
Sorriu ao pé rasgado.

(Para TI)

Terça-feira, Setembro 12, 2006

Ide

colocar-lhe um nome.

Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Tirem-me deste filme!

O Serviço Nacional de Saúde, foi à TVI, gabar-se da operacionalidade e velocidade de resposta imediata do problema em causa. Evacuou para Espanha uma criança de seis anos, com queimaduras de 3º grau, em mais de 40% do corpo. Descobriram depois, que afinal a Unidade de Queimados de São José, já se encontra apta a receber crianças. Tratou-se apenas de uma falha de comunicações, alegam...
O SNS é extraordinário!
Um exemplo a seguir!
Um ícone!

Agora, vou ali vomitar e já volto.

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

Post-it

Ao procurar entre papéis, encontrei um pequeno post-it amarelo onde em letras pequenas e corridas te tinha escrito.
Não to escarrapachei de novo no frigorífico, pois o decoro e a decência de ter adolescentes em casa não mo permite.
Mas fica aqui.
(E depois venham-me dizer que o buraco do ozono não está maior)

Sexta-feira, Agosto 18, 2006


foto de Alice Shintani

Num gesto cansado, atirou-se para a cadeira de plástico coçada. Olhei-a por cima dos óculos, afastando a guedelha teimosa.
- Queres café? Perguntei-lhe.
- Quero. Curto e sem açúcar.
- Continuas amarga gaja. Deixa-te disso. Olha que a vida azeda-nos a coisa, para nos ensinar a adoça-la.
- E tu, continuas velha.
- Mas completamente agradecida… e olha que não é assim tão fácil. E dei novo piparote na guedelha.

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Joguinhos e joguetes

Não sou grande jogadora com peões. Talvez porque fujo como o diabo da cruz da maioria. Dos jogos. Alegam-me que a maioria são temáticos, que se aprende sempre alguma coisa. Respondo quase sempre com o sorriso de escárnio número dois. Pelo-me por balelas. Recuso-me em primeiríssima instancia a jogar, mas bem convencida opto pelo jogo duro e limpo. Dói? A vida é uma merda, é feita de dores e de curas que ardem. Pelo menos, dou sempre a chance ao meu opositor de se defender. Não vale dizer que não avisei.
Mas é para jogar limpo. Cartas expostas, em camisolinha de alças, e mãos lavadas. Aceito tudo o que de sórdido me possam expor. Acordo a colite adormecida, mas inspiro devagarinho. Raramente parto do pressuposto de que. A empatia torneia-se, assimila-se e aprende-se. Inclino-me ligeiramente à frente, e qual larápio, prescuto no fundo do olho, os cliques que me soam números directos à abertura do cofre. Com o acesso conseguido, aguardo pela apresentação do power point. Mas aí reclino-me. Alargo o campo de visão, e mostro os ângulos abertos.
Joguemos. Agora tu, agora eu.
Ao primeiro truque sujo, pára-se o jogo e revê-se novamente as regras. Reiniciemos.
- Ah! Um pequenino aviso antes. Da próxima ficas sem mãos. Estamos entendidos?

Domingo, Agosto 06, 2006

Afunilamentos


Quando no presente pensava quebrada a barreira do funil, eis que, acordo meia aparvalhada com um agarrado à mão.
A discrepância de aberturas, sempre me entupiu o sistema nervoso central.

Quarta-feira, Julho 26, 2006

úteros

O frio penetra de mansinho no neoprene, quase osmose cristalina.
As vagas dizem-me que o mar é delas. E eu deixo ser. Agora sou apenas embalagem salgada confiante.
Desço sorrateira pela poalha de algas que espreitam o vidro da mascara, e perguntam quem és tu.
Perco-me nos rastos da areia, desenho-me nas rochas, e faço adeus ás estrelas-do-mar.
E quando flutuar entre o azul e o amarelo, ao som do meu próprio ar, vou-me deixar engolir devagar frio mar, para que te conheça os sons que não sei de onde soam.

Quarta-feira, Julho 19, 2006

Coisas do calor

Dei com o meu filho a ler um jornal que comprara.
Medi-lhe a temperatura.
Normal.
Estranho..

Quarta-feira, Julho 12, 2006

A Hipatia do Voz em fuga anda por aí a perguntar:
- Digam-me para onde foge a vossa voz!
A porta das traseiras está aberta, ora vão lá responder-lhe.


A minha, foge para dentro deste espaço aquoso que me transporta. E murmura-me ondulantes palavras doces, e outras tão azedas, que se esgueiram sem me dizer para a ruga entre as sobrancelhas. São chatas. Gozam-me sulfurosas. Bloqueiam-me os sentidos. São turvas, espalhafatosas, enfadonhas.
E são cruéis. Mostram-me o sapato cheio de merda que ás vezes sou obrigada a calçar. Têm um cestinho cheio de pensos rápidos. Mas sabem emudecer-se perante o ocaso, um olhar brilhante, uma mão pequena que se cola na tua, no ronronar do gato, num beijo de língua, num abraço apertado e sincero. Umas fogem pelo canal lacrimal, outras agarram-se com garras afiadas, logo abaixo da glote inchadas de medo.

E depois, existe o outro lado da voz. O que se manifesta em borbotões a fazer cócegas na língua, e saí por ai a dizer bom dia e boa tarde e boa noite, e acho, não acho, quero, não quero, e amo-te e obrigado, e foda-se que acabo de fazer mais uma negra na canela. Veste-se de nuances e matizes, e solta-se em riso quando descobre a braguilha desapertada.
E ainda a voz que nos escorre pelos dedos, via rápida do cérebro em movimento permanente.

A minha voz (depois de pensar melhor) não foge, recolhe-se. Não é por nada, mas a gaja também se cansa, ora!

Perguntaram-me se sou uma mulher de extremos. Sou. Ando tempos infindos num misto de abnegação ou mera estupidez, dizem-mo, a enrolar e a desenrolar meadas complicadas. Um género de primeira, segunda e marcha-atrás. Todos temos tempos diferentes. O meu, é simplesmente uma desaceleração contínua. Orgulho de cavaleiro armado, que mesmo com a armadura borrada, mantêm erecta a coluna em cima do cavalo.
Como um boneco teimoso, abano, abano, até estar perfeitamente firme. Convicções. Cartilha interna esfiapada.
Depois da meada esticadinha e sem nós, abro a gaveta e guardo. Ou consoante as hormonas que me banham, atiro tudo ao ar e, quem se enforcar na queda teve azar. Lamentamos, volte na próxima.
Se me arrependo? Muito pouco. Seguindo os cinco passos de descida, com os espaços aéreos compensados, não custa nada. E mesmo que o mar me pese tenho ar de sobra a insuflar-me o 2º estágio. Nada se compara. Absorve-se.
Cá fora os meia dúzia de filhos da puta que me tentaram fazer a folha, engasgam-se no próprio cuspo.

Quarta-feira, Junho 28, 2006


Imagem de "brilliantovui"

Encontro-me em parte incerta,
algures por aí.
No meio de nenhures rodeada de barbatanas.
Beijos e abraços respectivamente

Quarta-feira, Junho 21, 2006


Já lidei pior,e já lidei melhor (com os espelhos entenda-se), como tudo na vida aliás.
É tudo uma questão de manhãs, ou de noites, ou de pares. Sim, que os pares também nos fazem aceitar, ou desistir,
ou descobrir novas formas de sentires.
E também de armários. O meu não tem espelho, mas tem consciência.
Não me vejo, mas sinto-me.
E isso importa-me por enquanto.

Terça-feira, Junho 20, 2006

shame on you















E se
,

em vez do espírito bacoco na janela,
vestissem uma camisola verde,
e fossem doar ao hospital mais próximo,
um pouco de vermelho que existe em cada um de nós?

A malta que infelizmente veste pele amarela, agradecia-vos de coração.



p.s.
o bilhete é gratuito.

Sexta-feira, Junho 16, 2006

Chuvas de início de verão

Na ida, como um jogo de pião, achei que o tempo estava a meu favor. Que iria assim tolerar a aspereza da terra, a secura do ar, os sentimentos embutidos e suspensos.
A trovoada circundava lenta os separadores, as casas vestiram-se de branco nauseante, e as serpentinas dos ares condicionadas, mostravam-me as línguas sibilantes.
Tudo como dantes. O tempo revisitado esvaído nas espirais do fumo do cigarro. O tédio.
Fui-me lembrando da frase, nunca subestimes a estupidez humana, enquanto tentava arranjar conforto no banco de madeira.
A dança das batinas iniciou o rodopio, ao som dos sussurros e dos gestos agressivos de mãos e dedos espetados.
E o tempo cego.

A vida a correr e os meninos a aprender, salta a pulga pequenina, um dois três, macaquinho do chinês, quem mexeu perdeu!

- Os senhores podem entrar por favor…
- Dentro de dez dias, será averbado na Conservatória do Registo Civil, o vosso novo estado civil.

Trovejou ferozmente nesses dias. A água lavou mansa o pó dos carros.
A alma não conseguiu abrir a gabardina, e deixou-se ficar para ali encolhida.

Segunda-feira, Junho 12, 2006

Resposta grande

Eu fiz e faço, bem ou mal, que deixei de querer agradar a Gregos e Troianos, o dever de escolher ou dar-lhes a escolher dento dos limites, que a história da liberdade é muito bonita, mas só quando não implica ultrapassar a dos restantes, o direito à diferença. E falas em alternativas à banalidade, e nisso estou de pleno acordo, oh Torturrado. Para banal já lhe chega o dia a dia comezinho, em que poucas alternativas por diferentes motivos e desculpas, não acedem.
Ser feliz é parte de um todo, diferente ou igual. Neste caso significa, ter capacidade de encaixe, que apenas nós educandos podemos ajudar a firmar.
Ser um "lobo" no meio dos carneiros provoca ansiedade.
Fazer-lhes perceber o porquê da diferença é ponto número um.
Mostrar que se deve orgulhar da diferença o ponto número dois.
Ter estaleca para aguentar as queixas deles na diferença, o número três.
Não tenho vergonha de ansiar o melhor, de os influenciar na procura de um novo futuro, aceitando o presente, sem esquecer o passado, que somos indissociáveis do que nos rodeia. E falo, e leio-lhes e discuto as vezes que forem precisas, situações conflituosas ou de puro afecto, dúvidas existenciais, sem querer abrilhantar ao povo fervoroso, reizinhos e princesinhas que casaram e foram felizes para sempre.
E sonhar, é ser capaz, Bigodes.

Quarta-feira, Junho 07, 2006

Leituras


Imagem daqui

Discutia-se em comentários de quem era a culpa pela não vontade ou inexistência de hábitos de leitura nas camadas mais jovens. E há sempre alguém, que atribui as culpas ora para quem pare ora para quem cria. Como se a culpa de não gostar, ou ser calão e madraço, ou ignorante, ou oportunista, ou apenas simplesmente básico e buçal por inapetência ou puro relaxe, ser sabiamente culpa de quem não mostra como se faz. Constroem-se frases na certeza básica, de ser apenas a génese ou o copiar de outrem, o trunfo final que nos torna mais ou menos aptos a manter hábitos consistentes de leitura – que esta merda de ler Marias, Caras e Nova Gente, no cabeleireiro e consultórios não conta.
Sou filha de pais considerados inaptos para leitura. Um lia jornais desportivos, outro a Crónica feminina quando calhava. Jaziam nas estantes colecções completas do Círculo de leitores, lombadas certinhas e ordenadas por cores, virgens impolutas.
Até um dia.
Aos dez anos li o Guerra e paz, e confesso que nem metade percebi. Não tive alguém que me dissesse que não era adequado para a minha idade. Voltei a lê-lo aos quinze como quem descobre a pólvora. Tinha sempre uma lanterna de bolso debaixo do colchão, que me tornava invisível debaixo dos lençóis a partir das vinte e três horas. Fui lendo tudo o que era Eça, Nietzsche, Saramago, Kafka, Eco e Virgílio ou Arthur Conan Doyle e, fui descoberta ás duas da manhã por gargalhar sem contenção. Levei variadíssimas palmadas pela insurreição. Sei, que apenas eu lhes coloquei a mão sem ser para limpar o pó.
Agora tenho dois filhos, e a estante cheia de livros usados e manipulados. Alguns com anotações pequenas de lado, outros apenas sublinhados a lápis devagarinho. Uma, devora livros, revistas e publicidade da caixa onde se lê, publicidade aqui não, obrigado. Só não lê ás refeições, tal como não mastiga de boca aberta, nem apoiada sobre o braço, e pede licença para se levantar. O outro, já nasceu semi-inapto. Estar parado a ler, é um desperdício incrível de tempo, dá-lhe uma sonolência incoercível, lembra-se alegremente do tempo em que lhe lia ao deitar e que me fazias aquelas vozes todas muito giras, lembras-te mãe? Dedica-se com afinco aos manuais escolares, a exercitar todo o que é músculo, o resto é seca.
A ambos foi estimulado e incutido o hábito de leitura.
Ambos tropeçam em livros e revistas que se espalham pela casa, e que se leêm.
Uma lê e gosta. O outro adormece a babar-se para a Introdução. Deve ter saido aquela “parte genética” dos livros arrumados por ordem decrescente de cores quentes em dégradé.
Claro que a culpada sou eu.
Básico e evidente.
Não é clarinho como água?

Segunda-feira, Junho 05, 2006


Há muito mais de ano, nem sei já bem se não foram mais que dois, ouvi falar em blogues e bloguistas, tipo escritos crónicas escarrapachados no hiperespaço, dos quais nem sabia lá muito bem do que se tratava. Não quero com isto dizer que agora saiba, mas como diz a outra senhora, isso agora não interessa nada. Serve esta conversa de xaxa para vos confessar, que o primeiro blogue que li,e que foi o meu primeiro link, foi o do Old Man, onde o dito escrevia sobre um Inverno de petiscos e copos, e um mergulho gélido na piscina dos amigos, supostamente por ser de noite e a casa dos madeiros para arder ser mesmo ali a lado. Não resisti a deixar faladura na caixa dos comentários, e continuo alegremente como convêm, a seguir-lhe as histórias dos calções folgados no selim, sobre o qual até existe um artigo cientifico que mostra por A+B os perigos advindos da pressão sobre o períneo.
Enfim.
Três anos é obra de escritos. A imaginação continua-lhe borbulhante, como a imperial com gola que ele diz gostar.
Old Man, à tua!

Quinta-feira, Junho 01, 2006

Ria


Juntaram-se num local impessoal, com cheiros de óleos e gasolinas, e partilharam cheiros frescos em tardes quentes entremeados com conversas de crianças.

Do novo conseguiu-se ilustrar a vida.
Da empatia comum, as pequenas confissões.
No eclodir de milhares de insectos, fez-se harmonia.
Gravaram-se rostos em pinturas naturais.
Afagos sinceros de quem faz da vida um mural pintado de cores.
No fresco da ria as gaivotas lembraram-nos que somos ilhas.
Gosto que me gostem da maneira que eu vos gosto.
Já vos tinha dito?

Quarta-feira, Maio 24, 2006

Colos




Passei muitos e muitos dias das férias grandes, num diálogo insuspeito, com um indivíduo portador de Trissomia 21. O meu pai era dono de uma agência funerária, e tinha-o empregado como rapaz de recados. O Zé da língua grossa, como os rapazes maldosamente lhe gritavam.
Tinha ele perto de 30 anos quando o conheci, baixinho, de barriga proeminente, calças repuxadas até ao umbigo, por uns suspensórios às riscas que usava de Verão e de Inverno.
A mãe, dele, tratava-o com tanto mimo e medo, que nos causava um aperto esquisito no peito quando ela nos ligava a pedir para não o fazer andar muito ao sol, pois estava constipadito, e ele tem os pulmões fraquinhos, a menina sabe como é.
E a maioria de nós sabíamo-lo, e muitas e muitas vezes eu inventava-lhe uma desculpa pouco elaborada, para o manter ocupado a desfranzir as rendas dos caixões de madeira de pau-preto, que o meu pai ia encomendar ao Norte. Depois saia sorrateira, e ia fazer-lhe os mandados aos correios, na certeza do regresso ser recebida por gestos de cómico mudo, onde ufano me exibia a certeza do trabalho perfeito, tal como a filha (gesto baixo de mão) do chefe (dois dedos no ombro direito) lhe tinha recomendado fazer.
Eram tardes de preguiça e paz, e de risos, quando escarrapachados nos sofás da sala de espera, lhe lia em voz alta as aventuras do João sem medo.

Terça-feira, Maio 16, 2006

Maio mês dos burros


- Está-me a dizer que, embora haja documentos e testemunhos de uma separação de facto que se arrasta há quase cinco anos, em que decorre desde essa altura um processo litigioso, e que até podíamos acabar por aqui que já me saturo desta treta hiperbolada, e para todos os efeitos segundo o prazo legal, até já se pode consumar sem mais, vamos no entanto esperar por Junho, pois a 1ª audição de divórcio litigioso já está marcada há dois anos, e já agora aproveitamos e começamos por aí?
- Exacto.
- Vocês estão-me a gozar?

E depois venham-se queixar que têm processos em pilha no fundo da sala, que precisam de mais umas horas para atalhar aquilo, e já agora estas horas têm que ser bem pagas, extraordinárias pois é certo, e que os gajos do governo são uns beras pois até dias de férias lhe sonegaram.
E já agora...

- É pelo empalanço mesmo, grandessíssimos cabrões!!

Segunda-feira, Maio 15, 2006

Sexta-feira, Maio 05, 2006

Maria


Maria que nasceste Árvore, de raízes vincadas em terra mãe, regada pela empatia com que acolhes estranhos, nesse regaço de palavras bem mastigadas.
Leio-te deliciada na espera do fim que nem sempre se adivinha, e que se saboreia como vinho maduro tinto mel de terra.
Chegou o tempo do repasto, onde te enroscas no musgo do que foi escrito, e reinventas prosas novas em novas proas de navios.

Aceito-o como facto vivenciado.
E, guardo-o serenamente nesta caixinha mágica do faz de conta.
Caixinha, com espaço para mais um afecto mágico.
Que a vida também se quer com borboletas, mesmo que por vezes a preto e branco desmaiado.
Obrigado.

Segunda-feira, Maio 01, 2006

Com ou sem?


Nada melhor que este suposto dia, para ler este texto que tinha no correio electrónico.

- Boa Tarde!
- Tarde....Diga
– Queria uma água com gás.
- Fresca ou natural?
- Fresca.
- Com ou sem sabor?
– Pode ser de limão.
- Frieze limão, Castelo Bubbles, Carvalhelhos limão?
- Sei lá, traga-me uma qualquer...Frieze
- Frieze limão já acabou...Pode ser morango, tangerina ou maracujá?
- Esqueça...traga-me umas Pedras...
– Fresca ou natural?
- Fresca...
- Com ou sem limão?
- Sem.
- Normal ou levíssima?
- Quem?
- Normal ou uma nova que saiu, que é mais leve...
- Meu amigo, traga-me uma Bohemia e esqueça o resto...
- Sagres Bohemia não temos. Só temos normal, Preta e Zero
- Então traga uma Superbock
- Garrafa ou imperial?
- Garrafa.
- Superbock normal, Green, Twin ou Stout?
- Porra!!... já perdi a sede.... é um Palmier.
- Coberto, recheado ou simples?
-...da-se!

Sexta-feira, Abril 28, 2006



imagem daqui

Argonauta de peito feito surdo ao canto das sereias.
Deixa-me ser escarpa em palmas de mãos expostas.

Esconder-te-ei o logro.

Anda, que te penteio sob o luar.
Descansa neste seio de brilho dúbio, repousa as vestes na falésia.
Anda, que te afago a pele farta de sal.

Depois, de volta ao ondeado do dia, expia só desejos inusitados e insatisfeitos.
Mas deixa que sejam meus para tos poder tornar teus.

Segunda-feira, Abril 24, 2006

Campanhas


Cartoon daqui

Há a fome dos outros. A fome de poder. A fome da leviandade. A fome da inércia. A fome de vida. A nossa fome.

- Mãe, tenho fome!
-Poderás ter vontade de comer. Fome…duvido.
- Pronto, está bem, tenho vontade de comer. Mas é uma frase mais longa.
- Mas é a frase correcta. Jamais confundas fome, com vontade de comer.
j.p.


Foi através daqui, da ONE, que começou esta pequeno gesto de solidariedade para com os povos mais desfavorecidos. E foi através desta Senhora, de nome Maria Árvore, a quem roubei esta frase, que vos dou a ler o seguinte:

“Banco Alimentar Contra a Fome, que todos os dias ajuda a colmatar a pobreza e a fome em Portugal e que já a 6 e 7 de Maio próximo estará num supermercado próximo de si, ou então, a APAV - Associação de Apoio à Vítima por apoiar as vítimas de todos os tipos de crimes .

Já agora, que não custa nada, passem por aqui se faz favor, e apoiem a velhinha UNICEF, que continua muito coerente com os seus princípios básicos. Ela agradece.
Obrigado!

Seguem as cordas para:

- Soslayo
- Classe de sargento
- Charquinho
- Divas
- Garfanho

Terça-feira, Abril 18, 2006

Biombos


Faltavam sessenta dias para acabar o curso, e uma noite “esqueceram-se" de mim numa enfermaria sem janelas. Telefonei-lhe para casa em tumulto, o coração no cérebro a latejar assustado, o quepe meio de banda. Que estava de diarreia, e afinal daqui a uns dias eu ia ficar sozinha na mesma, e desligou.
Fiquei de auscultador pesado e preto, na mão, a ouvir o pi...pi...pi...pi..., e a tentar regorgitar saliva desaparecida, num esforço meio estúpido de glote que subia e descia. A pergunta: e agora? martelava-me o diafragma, sempre a subir pelo peito como uma hera de metal.
Vagueei pelas camas ocupadas, descalça, para a morte não me ouvir e eu poder ouvi-la a ela, de lanterna a pilhas na mão, boca de luz reflectida nas colchas brancas de favos. Escutava em apneia as respirações adormecidas, e abençoava as morfinas amigas/companheiras de todas as doenças neoplásicas que habitavam aquele cubículo. Vigiava as gotas perfeitas nos sistemas de soros, trocava garrafas de vidro frio, por outras ainda mais frias. Circundava cadeiras como estatuetas mudas, e escrevia tudo furiosamente num papel amarrotado que me ocupava o bolso.

E um soluço ao longe, e mais um, e a corrida rápida no soalho de madeira que cheirava a urina, a solidão,a sofrimento velhice e abandono, a muita gente junta deitada. Sempre deitada...
-E o que foi, e porque chora, e a resposta sibilada entrecortada, e veja, olhe para ali, a morte já veio, e ela está mal, veja, olhe! E eu olhava, e só via uma mulher na cama do lado, o olhar meio enevoado, o penso da mama repassado a drenar veneno que comia entranhas, e a mão ossuda caída na colcha de favos brancos. Alinhei o biombo de ferro, vestido de algodão branco ás preguinhas, e debrucei-me sobre ela, não sem antes verificar por duas vezes o gotejo.
-Sente-se aqui menina, aqui pertinho, que tenho medo.
E de que medos falava ela, que estava tudo bem, que tinha tantas mulheres ali ao lado. E que a noite era grande, e que precisava de descansar. E fico aqui um bocadinho e dou-lhe a mão:
- Quer?
Passou-se tempo que não me recordo, e a mão tão fria e tão ossuda, e a laxidez a entrar sorrateira. E depois disse-me que já não tinha tanto medo.

Quando percebi que o pequeno sorriso tinha congelado no tempo, tapei-lhe o rosto com o lençol e a colcha de favos brancos, e debulhei-me em lágrimas em cima da mesa enorme, rodeada de processos clínicos onde se lia em alguns a letras vermelhas sublinhadas,não reanimar.

Domingo, Abril 16, 2006

Amarguinha


Somos um bando de perfeitos. De verdadeiros artesões de sabedoria a rasar a parolice ferrenha, em que dizer mal de tudo está na ordem do dia.
Somos os melhores pais e mães, as esposas perfeitas e decorosas, as amigas de coração sincero, o profissional mais atento, o político mais honesto, as/os amantes mais fogosos, a beata mais devota, o arquitecto mais ousado, o pintor mais olhado, o escritor mais nobelizado, a vizinha mais metediça. O blogue dele, tem uma cor mais gira, as graçolas mais estilizadas, mas tem virgulas a mais, e uma gramática nauseabunda.
Nada se enquadra nos parâmetros, com que de manhã nos levantámos.
A esquina devia ser um bocadinho menos esquina, a cor estimula padrões de grafites, o papel higiénico devia ter 4 folhas, os livros de reclamações existem como pisa papeis. As avenidas deviam ser mais largas, as arvores mais verdes, as casas mais baixas, os papagaios de papel da cor do burro quando foge. As glândulas salivares dos outros é que cospem no chão, o cão dos outros devia usar fraldas, as beatas nascem por geração expontânea nos autoclismos das pastelarias, e os bancos do metro são esteticamente gelados.
Dantes era bom, dantes era mau, o futuro pertence a quem melhor pintar as cores do arco-íris.
Cruzam-se conflitos com inexistências. Achaques com genéricos. Hipocrisias e preconceitos com socialmente aceitáveis.
Estranhamos quando nos sorriem na rua, deixamos para amanhã os abraços, e arrastamos as tamancas funestas que nos impingem.
Passamos parte do tempo a achar que a galinha da vizinha é muito melhor que a minha.
Esquecemo-nos diariamente que somos perecíveis e descartáveis, e que deitados somos completamente inofensivos.
A nossa aparente complexidade, bem espremidinha, cabe numa colher de sobremesa que se toma de um só trago e, é amarga como o caraças…

Terça-feira, Abril 11, 2006

isto responde-te Elipse?
;-)

Você é Matrix: Você vive no seu próprio mundo e tem dificuldade em aceitar que lhe imponham regras. É inconformado e por vezes mesmo desconfiado, mas com um grande instinto de sobrevivência


Um dia a propósito de um qualquer comentário meu, o Carlos da Alameda dos Oceanos, desafiou-me a terminar uma história, por ele iniciada.
Agora apeteceu-me.
Toma Carlos, é tua.



……
E disse-lhe. De atacado. Com muitos gestos de corpo e riso nas mãos, apoiado pelos olhares daquela gente expectante, gozo sôfrego de dor alheia, panaceia das suas vidas vazias goradas, naquele mise en cène já refilmado.
D sorvia o chá, ligeiramente reclinada de modo a observa-lo por inteiro, pestanejando devagar. Acenava assertivamente com a nuca, deixando-o pouco a pouco baralhado.
E G falhou-lhe de espelhos, e de afectos em conflito, coisas interiores e frases feitas, colibris e aguarelas, argumentos e condimentos, factos de pele e olfactos, encadeamentos opinativos, de falcão de asas cortadas, cabrestos que o apertavam e alergias diversas.

Pouco a pouco deixou de o ouvir, enquanto inalava o chá num frémito de narinas em olhos de sombra quieta, e voou longe para o "chanoyu".

Quando G a abanou suavemente, e lhe perguntou se tinha escutado e compreendido, D apenas lhe respondeu que ele não passava de um insecto.
E perante o espanto da plateia, dissertou sobre o mistério da cerimonia do chá, e de como esta foi crescendo sob a influência do budismo de Zen cujo objectivo é, em pa
lavras simples, purificar a alma do homem, confundindo-a com a natureza.

E retirou-se do salão, depois de lhe atirar com desprezo uma nota de €20.

(E pronto.
Vitória, vitória, acabou-se a história
.)

Segunda-feira, Abril 10, 2006

Sem som



Para te escrever sobre o silêncio, é necessário uma moldura fechada e insonorizada.
Perderás assim o ritmo do som dos passos abafados no tabuado, o som das lagartas a triturar ao de leve as folhas, o murmúrio do vento que nos enreda os cabelos.
Esquecerás o som do mar, e o gorgolejar dos peixes.
Cegar-te-á a areia que rodopia.
Perderás o som das montanhas escurecidas pelas nuvens difusas, que projectam sombras nas pedras dormentes e subjacentes.
Não responderás aos pássaros nocturnos nos pios de caça e namoro.
E não te deixarás adormecer ao som das cigarras que embalam ventres satisfeitos, frescos de luar nas noites de Verão.
O não som em espécie de tortura manietada muda.

As mãos que harpeiam melodias que sei que soam, mas não sei quais.
E como poderás escutar o bater monocórdico do coração?
E ouvir a brutalidade dos factos?

Viver calado, não é viver no silêncio.
É sentir os sons no momento e ofertá-lo nas palmas das mãos em palavras.


imagem daqui

Domingo, Abril 02, 2006



Escreves que te morreram as palavras.
As palavras não morrem, só os homens.
O tempo do poisio começou, apenas contráriamente ao que está preconizado,
e as penas que transformamos em flores quando voltar a chover,
vão transformar a tua clareira num reino de malmequeres.

que tenhas dias felizes porque mereces, Bigodes, e que este dia seja apenas mais um de crescimento interior

Quarta-feira, Março 29, 2006

V Edição do concurso O Escritor Famoso - Actos de Cinema
aqui

Olhos esbugalhados, no peito arquejante as mãos crispadas. E, ora corria ora caminhava muito hirta, fixa num ponto preto adivinhado de longe. A água gelada fustigou-lhe a cara e nem sentiu. Saia levantada sobre o corpete, os colotes ensopados em sal e areia, e aquela vontade enlouquecida e férrea de prosseguir, na recusa da perca daquele bocado de passado.
Estacou no agora o tempo parado, respiração e gestos controlados. Ajeitou a saia preta, passou os dedos sobre as madeixas descompostas, e deixou as ondas lavarem-lhe as mãos presas de alma, enquanto os pés se tornavam suavemente parte de areia como partículas polidas de universo.
Tocou ao de leve o pé do piano, e deixou-se levar nas patas das Fragatas, planando sobre os penhascos esverdeados. Seria então quando as nuvens lhe tocassem o olhar, que se deixaria cair. Sabia-lhe bem a brisa molhada, o som das asas embalado em forma de pernas deitadas e quentes, entrelaçadas. A vontade de manter as pálpebras encerradas, a vontade de as abrir. O aconchego dos linhos com cheiro a ferro quente de carvão, as Prímulas delicadas no jarrão, os pés de ervilha na janela.
Contemplava as cercas novas, o medo e a curiosidade de menina, que já fora, mas que por dentro nunca cresceria, segredo só dela emudecido em forma de palavras que se recusava a dar a escutar. Arfou um pouco mais entontecida, e o ponto preto lá no fundo a ficar desfocado, entre o limbo acusador do consciente e do inconsciente.
Deixou-se escorregar, enrolando as algas na passagem, de encontro ás vagas que lambiam a praia, rastos de dedos na areia ensopada, o vestido casco escorregadio, uma mão que volteia à procura do ocaso, o pé do piano encontrado, o corpo carcaça fendida inerte e enclavinhada.
Içou-se devagar, o lado esquerdo do coração a dizer que sim, o outro lado que não, e devolveu ao mar lágrimas sem som, agora rio luminoso em fim de dia.


Toma lá Maria

Terça-feira, Março 28, 2006


[limiting directives will go here]

para ti
que me inspiras papoilas rubras
e verdes espigados em dias de mar

Sábado, Março 25, 2006

Plim!



Foto daqui


Isto pode parecer completamente estúpido, mas só hoje olhei para o céu e vi as andorinhas. Quando o pescoço começou a emitar uns barulhos estranhos, é que me dei conta, de ter estado muito tempo de nariz no ar como a farejar chuva.

Tantas...

Mas de onde vieram tantas, e eu não dei por nada?

Sexta-feira, Março 24, 2006

Hoje é dia de anos no Voz em fuga






Neste dia a lembrança do ventre que te nucleou, morula dividida celular
e depois o resto do sorriso, a ânsia de ouvir o som balbuciado...
as palmas pequeninas na luz das velas
hoje as unhas tratadas a limpar a lágrima disfarçada

neste dia
voltarás ao ventre que te gerou
dá-me pernas, braços, cuspo
dá-me tudo e dá-lhe tudo
água sal vida


e por favor tenta por tudo ser feliz


Parabéns HipatiaLudovina gaja amiga

Quinta-feira, Março 16, 2006



Recebi esta no mail
Obrigado querido.

Quinta-feira, Março 09, 2006

mas que raio é esta história do dia da mulher?!mas qual mulher? e o dia do homem? e o dia de não cortar a arvore? e o dia do sapo do amazonas? e o dia da codorniz? e o dia de tirar os macacos do nariz? e o dia do Zézinho? e o da passarinha? e o dia da não violência? e o dia da independência dos povos? e o dia do não me fodam o juízo? e o dia dos aflitos? e o dia de todas as mortes por segundo? e o dia das alegações? e o dia do tirem-me daqui? e o dia do recibo que me pague? e o dia da bandeira? e o dia da asneira? e o dia do banho? e o dia do ranho? e o dia do pranto? e o dia de ser feliz? e o dia de não bater na mulher?
e o dia de não pontapear o ceguinho? e o dia dos sem abrigo? e o dia dos ofendidos? e o dos humilhados? e dos velhos sem dinheiro? e o dia do avental, e dos pés pequeninos encalhados no fogão? e o dia das anedotas de merda?
de que dia falam as flores no Modelo, eu que nasci de um útero como os demais feitos de carne e sangue e água e sal?

mas de que raio de dia falam vocês??

Quarta-feira, Março 08, 2006


Despejou uma a uma as gavetas da cómoda e, ficou-se parada de cócoras, a olhar vagamente os montículos de papeis, tristes pudins liquefeitos.
Hesitou o gesto, e levantou-se.
Depois já meio recostado o corpo, o cotovelo rodou em abandono no braço da cadeira. Mecanicamente deslizou o polegar no isqueiro, o olho semicerrado brilhante da chama, o fumo inalado em estalo de nicotina nos alvéolos.
Um dia deixo de fumar, pensou.
Mas hoje não.
Hoje não.

Espalhou os papéis devagarinho, os dedos dos pés rodopiando leves, uma dança de cores e números, letras e desenhos de pequenos corações desbotados.

Rodou no bolso o batom do cieiro, atravessou a rua em linha recta, e parou no contentor, onde o saco do lixo aromatizado a pinho iria jazer meio esventrado. Tripas de papel, lado a lado com metades de ovos estrelados e batatas fritas, do pronto a comer da esquina.
Do lado direito de quem sobe. Ou do esquerdo de quem desce.
Os carros querem-se de frente. É que nunca se sabe, quem vem lá.

Domingo, Março 05, 2006

Eu não quero ir trabalhar!!...

Domingo, Fevereiro 26, 2006

ahahahahahah!!

Eu sabia que andava a fazer noites a mais...

Juggernaut Optimized for Assassination and Nocturnal Analysis

Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

Guerras



Sorri-me sobre as palavras, de uma mulher que escreveu, “a beleza do texto não me espanta. Espanta-me que esperes o sol quando tu és mulher para o procurar até escondido atrás da lua, numa noite de luar”.

Que espanto é esse mulher, não sabes tu que os "guerreiros" precisam de dias de paz, refugiados e conscientes na respiração ofegante, à espera que o tempo deixe de doer? Para tudo tem que haver paragens. Rearmamento, aprendizagem de técnicas mais sofisticadas de formas de combate, reparação das armas, o próprio gozo dos bons momentos, não se saboreiam sem silêncio. O recolhimento em si, devia ser a única forma obrigatória para o reconhecimento das coisas, que de outra forma são vedadas. Não falo em isolamentos castrados penitentes, em forma de culpas e castigos. O homem é um ser de afectos, de libidos, que não devem ser jamais interditados.

Falo-te no saboreio em volúpia de tons, de sons espaçados melodiosos, de ventos que te embaraçam o cabelo e te trazem novas distantes. De olhos prazenteiros e cintilantes, escondidos sobre cílios trémulos. Do afago de colo que aquela rocha quente te dá. Dos sentidos remendados, em rotinas renovadas.

Quando for a hora, vestirás as "armas" que te balançam melhor na mão.
E desaparecerás por detrás da lua numa noite de luar.
Sozinha. Que as tribos são eficazes em guerrilhas de força bruta.
Aguardo em ansiedade controlada a próxima estação.
Tudo tem um tempo. O meu é este.
Mais um tempo nado. Mais uma ruga que me traça a pele.
Ontem renasci uma vez mais. Sem alaridos ou manifestações entusiásticas. Uns lembraram-se, outros não.
Os tempos são mesmo assim.
Passam.

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006

Barqueiras


Desconheço o nome do fotógrafo

Uns, constroem castelos de areia ou pedra, de nuvens de vento ou queijo fresco. Outros ainda, veleiros enfunados, capitães de ventanias ou mares parados, em prata imortalizados, numa qualquer medalha comemorativa de uma passagem por esta ou outra vida.
A escolha varia entre a imaginação e o espírito inquieto, que nos molda estadíos, levados mansos pelo rio, ou engalfinhados por torrentes rebolonas que ora nos estrangula, ora nos dá colo.
Ou para quem tenha o pé calçado, incitados a optar por impulsos, entre estradas calcetadas ou serpentinas de carreiros empoados.
Questão de técnicas.
Eu cá, sou mais pelas barcas. Madeiras inchadas, de águas verdes, azuis ou coralinas. Casco fendido, cicatrizado, revirado e afagado, remendado de pedaços de outras terras.
Engalfinhadas no macio do punho do remo, as mãos teimosas criam riscos insinuosos na superfície espelhada. O bucólico.

No entretanto, deixei-a na costa. A barca.
Descansa meio descambada, nos seixos do mar gelado.
Espera tempos de sol.

Domingo, Fevereiro 12, 2006

Sem regras, sem normativas, banais e igualitários na preguiça, estupidez natural, confusão, não percepção, medo incondicional, do quê e por quem e porquê, o sempre igual, sem capacidade de voracidade no perceber e entender que há mais, repetição, hipocrisia, hipotonia, desagrado, intromissão, o desrespeito, a gula fugaz, a inépcia, o encolher dos ombros no desencontro, o diz que diz, o diz que fez, o que não fez no que não se faz.
O totalitarismo, a obrigação muda e surda, o acentimento de chapéu na mão, a careca exposta, a submissão, descomposta em agitação, calada, amordaçada, valores sem dogma, dono em estado servil, vacúolizado, vilipendiado.
Vil!

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Grilhetas


Não julgues Maria, que lá por teres escondido os pregos do crucifixo, não ficou a coisa arquivada na memória dos rancores.
A seu tempo pagarás…com juros!


Quatro empregos que já tive na vida:

1- Aprendiz de cangalheira
2- Motorista
3- Jardineira
4- Enfermeira

Quatro filmes que posso ver vezes sem conta:

1- The piano
2- A idade do gelo (riam-se que eu também me rio muito)
3- Apocalipse now
4- Le Fabuleux destin d’Amélie Poulain

Quatro sítios onde vivi:

1- Amadora
2- Évora
3- Torres Vedras
4- (Em aberto que eu não sou de ficar sentada)

Quatro séries televisivas que não perco:
Depois de ter dito ali em baixo que detesto televisão…

1- Sete palmos de terra
2- House
3- Perdidos (quando me acho)
4- …..

Quatro sítios onde estive de férias:

1- Zambujeira do mar (sem referir a restante costa Vicentina que é um espanto)
2- Pirinéus
3- Gerez
4- Toda a costa Algarvia

Quatro dos meus pratos preferidos:

1- Qualquer tipo de marisco serve
2- Migas de espargos com carne de porco
3- Cogumelos com presunto
4- Mel e noz em prato de sopa, sugestão da Marietree

Quatro Websites que visito diariamente:

1- www.comodeixardeserlorpa.blogspot.com
2- www.comoescapardas2ºsfilas.blogspot.com
3- www.espiritozenemtresinspirações.blogspot.com
4- www.aartedelidarcomadolescentessemosespancar.blogspot.com

Quatro sítios onde gostaria de estar agora:

1- A “canoar” num rio qualquer
2- A ouvir o eco nas pedras da Irlanda
3- Num mar de coral a chatear as anémonas
4- No meio dos coqueiros adormecida na rede

E agora os quatro premiados:

Divas
Bin
Nathaniel
Soslayo

Desenrasquem-se.

Terça-feira, Fevereiro 07, 2006

De que coisas estranhas sou feita

A Elipse palavrosa, para se vingar do excesso de nervoso com que tem lidado, e gostado que eu sei que sim, ela adora desafios, daqueles antecipados de aeroportos e livros e rascunhos e bolas de cuspo na faringe antes dos debates, mandou para aqui a batata quente.
Depois não digas que não te avisei…


- A bancada da cozinha tem que estar estupidamente asséptica antes de começar a cozinhar.
Esta é paranóia, ou desvio laboral, ou…
- Dou comigo mais vezes do que gostaria, a arrumar meticulosamente por alturas, os talheres na gaveta.
- Tenho o dobro do tamanho das glândulas lacrimais. Choro porque sim, porque não e porque talvez. Nunca ando de lenço o que se torna um estorvo. (o ranho que vem a seguir, por supuesto)
- Ando sempre de óculos de sol de Verão ou de Inverno, e nunca sei deles ao sair de casa.
- Fico com formigueiros, quando não vão directos ao assunto. Os rodeios e salamaleques, e os “prontos” pelo meio tiram-me do sério.
- Não suporto gente ignorante, nem que me interpelem com um “diga”. É tão mau como cuspir na sopa.
- Tenho mau feitio e não costumo esconde-lo.
- Prezo até à máxima estupidez a minha liberdade. Nem sempre me tenho dado bem.
- Não suporto televisão aos berros. Aliás, eu não suporto é televisão mesmo.
-Estico sempre meticulosamente os lençóis da cama, antes de me deitar, mesmo que não os consiga ver bem.
- Coro por dá cá aquela palha. Consigo convencer sempre os restantes que lido bem com isso.
- Nunca arranco com o carro sem ter a janela aberta, e raramente não fico com o cabelo lá entalado quando a fecho.
- Sou uma perfeccionista nata, mas jamais o admitirei.

O resto, como diz o outro, nem ás paredes confesso.


E Marietree eu já te atendo…

ups!
Esqueçi-me das "travessas" seguintes!
Agarrem-nas:
Hipatia, Claudia, Manuelmeias, e Bastet dos bigodes
Assoprem-nas!

páginas amarelas


-Oh M., já sabes tudo para o teste de Ciências da Natureza?
- Já pois!
- Então diz-me de seguida o nome, a morada e os números de telefone, de todos os animais do Continente Australiano.
- Oh P. que parvoíce... Dah!

Sábado, Fevereiro 04, 2006

Memórias


Arraiolos 29 de janeiro 2006 colecção particular

Carta para não me esquecer

Prezo saber que durante este entremeio não se manteve sentado.
A alma de qualquer coisa, está em nós que a compomos, no toque da mão na pedra, do cheiro daquela praça, dos sons alvorados dia.
Digo-lhe agora, que a minha cidade de pedras, aguarda silenciosa do outro lado do rio. Seca magia, ponteada de verde nas pedras musgo.

Agora branca na vergonha dos homens.

Não sou de criar raízes, mas polvilho-me de sementes por onde passo.
E num qualquer recanto em maré de saudade dor, planto-as e rego-as.
Voltarei a desandar numa última mirada para um qualquer braço de mar, e em castelos de areia abrirei seteias.

Tenho agora sete anos.
Os cabelos enrolados de algas e muitas sardas queimadas. Já não preciso da pá, que a areia escorre-me molhada por entre as pontas dos dedos pequenos. E no búzio poisado já guardei o som do mar.

O ronronar da gata, o sapato esquecido no corredor, a janela que se embaceia devagar, o pingue-pingue na torneira da cozinha, o barulho surdo do teclado, e tu sentado ali ao lado.

- Trazes-me um chá, e um Lisaspin? Obrigado.

Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006

Sábado, Janeiro 28, 2006

Falando em nomes